Rock em Cabul

Nov 17, 2018

É curioso o resultado dessa comédia roteirizada por Mitch Glazer, que já está acostumado em elencar a persona de Bill Murray (“Os Fantasmas Contra Atacam”, “A Very Murray Christmas”), e dirigido por Barry Levinson, que já está acostumado a dirigir Murray e outros famosos, além de ter uma cinegrafia conturbada, que vai de “Rain Main” e “O Enigma da Pirâmide” para “Esfera” e “A Revolta dos Brinquedos”. Levinson não está acostumado a dirigir filmes ruins como esse, mas é Glazer que o entrega um material confuso, que se perde em suas premissas antes mesmo do segundo ato, e vai atravessando a vergonha alheia até não poder mais.

A história se ancora em um fato verídico: a primeira mulher a cantar em um programa de TV no Afeganistão. Todo o resto é mentira. Assim como a história do produtor musical Richie Lanz (Murray), que constantemente usa nomes famosos como Madonna para se auto-promover. Murray já foi melhor definido por Rober Ebert em sua crítica de Flores Partidas: é um ator fascinante quando não faz nada. Isso é verdade tanto no filme de Jim Jarmush quanto em Os Caça-Fantasmas e “O Feitiço do Tempo”, e é exatamente por ele fazer alguma coisa é quando o filme deixa de ser interessante.

Por isso e porque Zooey Deschanel começa estrelando o filme e some para sempre do plot nos primeiros quinze minutos. O mesmo tempo da ponta de Bruce Willis, que sem falar nada consegue ser hilário. A pior e a melhor ponta definem os extremos dessa empreitada.

Então Murray encontra uma prostituta que pretende se aposentar interpretada pela voluptuosa Kate Hudson e Glazer e Levinson pretendem construir uma crítica divertida à chuva de dinheiro que ocorre quando os EUA resolvem patrocinar uma guerra. A combinação inicial já estava ótima por reunir o nivel ótimo de sarcasmo de Murray e da realidade que o cerca. E começa a desandar justamente quando a bondade humana começa a tomar forma em sua tentativa de ajudar a tal cantora afegã, interpretada por Leem Lubany.

A partir daí todo o plot se rende ao maniqueísmo barato, e os personagens que já estavam desenvolvidos são usados em ações que não imaginamos eles fazendo de livre e espontânea vontade. Tudo começa a soar falso e forçado, e a compulsão de deixar de assistir ao filme é maior do que a vontade de ver onde ele vai terminar. Porque no fundo nos desinteressamos por aquelas pessoas. Elas fugiram do controle de nossas crenças e não são mais viáveis no universo do filme. A bondade pela bondade cai por terra em um deserto de violência e ambição humanas. E tudo isso porque é impossível imaginar Bill Murray bancando o bonzinho sem querer algo em troca.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-11-17. Rock the Kasbah. EUA, 2015. Escrito por Mitch Glazer. Dirigido por Barry Levinson. Com Bill Murray, Leem Lubany, Zooey Deschanel