Rocky - Um Lutador

O primeiro Rocky, o projeto de estreia de Sylvester Stallone, hoje poderia até soar como piegas. Porém, sua sinceridade em sua história, mesmo que ela seja piegas, o coloca acima de classificações. É um filme de sobrevivente. Um marco no Cinema acima de sua pieguisse. Sua luta final é coreografada, editada e ritmada de uma maneira a se tornar a “luta do século”, mas não é isso o que a torna especial, mas toda a história que a carrega.

Rocky Balboa (Stallone) é um italiano pobre que vaga pelas ruas da Filadélfia. Ganha uns trocados por lutas semi-amadoras que são assistidas apenas pelos frequentadores da academia, um lugar que tem o aspecto de uma igreja (talvez seja) e que mantém a figura de Jesus Cristo estampada logo acima dos lutadores. Em determinado momento de uma luta inicial podemos ver uma sobreposição um pouco mais que sutil em que Rocky aparece logo atrás de uma luz, e Cristo, sendo iluminado o seu semblante icônico. Depois dessa cena, somos levados para a dura realidade. Para sobreviver ele precisa ser o capanga de um agiota no decadente bairro onde vive. Para conquistar uma moça faz piadas sem graça toda manhã quando a vê, em busca de comida para suas tartarugas. Talvez esse seja o primeiro filme a usar em sua coletânea de símbolos a figura do messias com tartarugas de aquário, mas que faz todo o sentido quando falamos de Rocky: um ser predestinado a ser escolhido pelo campeão peso-pesado a lutar com ele, e um ser casca grossa, que não arreda o pé do que decidiu fazer, por mais estúpido que seja.

Seu ídolo é o xará Rocky Marciano, também descendente de italianos, mas a luta emblemática foi baseada no evento em que o campeão absoluto Muhammad Ali, ao ser desafiado por Chuck Wepner. Chuck teria sido esmagado por Ali se as previsões da mídia estivessem corretas, e de fato Ali foi o vencedor aquela noite. Wepner, porém, aguentou bravamente por todos os 15 rounds de duração até cair. A tartaruga volta de novo no imaginário de Rocky: alguém lento, meio abobalhado, se tiver a casca grossa e dura o suficiente, pode não vencer na vida, mas aguenta os socos enquanto mantém seu foco.

E o foco de Rocky é Adrian (Talia Shire), a moça da loja de animais. Ela possui uma beleza oculta em seus trejeitos tímidos e desconfiados. Na cena em que os dois se beijam, hoje Rocky certamente seria denunciado por estupro. Naquela época, ele foi o único ser humano que enxergou que Adrian é um ser humano, e que merece ser tratada como tal. O mesmo vale para o desengonçado lutador. Ela fornece a contrapartida e o equilíbrio para os dois: Rocky não se sente mais um lixo depois dos dois ficarem juntos. Enquanto ele mal subia as escadarias do museu de arte na sua corrida matinal do início, passa a socar os bois pendurados na casa de carnes onde seu cunhado trabalha. E como o rapaz da rádio disse: “quem em sã consciência acordaria o mesmo horário que ele, 4 da manhã?”.

Bom, a nossa tartaruga-herói acordaria. E acordou durante todo seu treinamento. E disse umas boas verdades para seu treinador. E, mesmo diante de sua escalada física, manteve sua cabeça no lugar: é impossível ganhar de um campeão profissional. Mas, e apenas mas, se ele conseguisse o mesmo feito de Check Wepner, seria mais do que o suficiente para ter feito algo de sua vida. Quantos de nós, que nunca chegará ao topo, consegue aguentar tantos socos sem cair transtornado? Apenas Jesus, talvez… e algumas tartarugas de casco bem grosso.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-03-17 imdb