Rogue One: Uma História Star Wars

2016/12/28

É um prazer poder experimentar um pouco do universo dos filmes de Star Wars sem se preocupar (muito) com personagens centrais, tramas que mudarão a galáxia e, principalmente, histórias que nunca terminam. E apesar disso, aí está você de novo, estrelinha da morte. A fixação da alegoria com morte e destruição nunca termina. Ela se mantém quase como um fetiche escondido e refletido nos “inimigos”, braço esquerdo da mesma Força. O lado negro sempre é a visão mais clara do que acontece quando o poder está nas mãos de poucos, sejam eles tiranos malignos ou pseudo-representantes do “povo”.

Porém, dessa vez é possível contemplar um arco completo de um personagem em um único filme, o que o torna único em todos os filmes, que são meros pedaços de uma história maior. Graças a essa concisão narrativa, o pequeno conto expandido do universo conta a história inteira de Jyn Erso (Felicity Jones), a filha do engenheiro responsável pela construção da Estrela da Morte (Mads Mikkelsen), um aparato equivalente ao que seria a bomba atômica para os nazistas. Erso é abandonada depois que seu pai é sequestrado e sua mãe morta, mas logo é resgatada pelo terrorista Saw Gerrera (Forest Whitaker). O tempo passa e vemos que o Império está agora enfrentando uma resistência em sua hegemonia galáctica através de um grupo de rebeldes. Com o uso do frio Cassian Andor (Diego Luna) eles vão em busca de Jyn, pretendem obter acesso ao seu pai e mais informações sobre os planos do Império, para assim frustá-los antes que seja tarde.

Um adendo curioso (principalmente para os fãs) é que os “nazis” deste filme dessa vez são comandados por um Imperador que nunca aparece e pelo comandante Orson Krennic (Ben Mendelsohn), assediado de perto pelo seu subordinado Governador Tarkin (Guy Henry perfazendo o original Peter Cushing), e acompanhado visualmente de longe, mas misticamente de perto por Lorde Vader, um humano muito debilitado que parece usar um equipamento semelhante ao que Saw Guerrera, já velho e debilitado, precisa usar para respirar em alguns momentos.

Apenas descrevendo o casting de Rogue One e sua história é possível entender que este não é um mero “filler” de trabalhos maiores, mas uma composição com atores com potencial dramático (e o utilizam com bastante empenho), além de soltar suas amarras explicativas de todos os Star Wars, passados e futuros. Até a explicação do sistema respiratório de Lorde Vader, deixado à imaginação dos espectadores no original de 77, encontra uma pista na figura de Forest Whitaker e seu aparato mais tímido. E se este filme fosse o primeiro a estrear entre todos os outros, ele alavancaria em níveis extremos Uma Nova Esperança, já que seu clima é justamente de desesperança, ou um fiapo de esperança, já que, representando o lado bom da Força através de um crente cego, embora devoto fervoroso, e simbolizado por uma estátua tombada de Obi-Wan Kenobi, o último dos Jedis a ser visto (uma referência sutil e nostalgicamente eficiente).

Aliás, esse enriquecimento do universo, que utiliza novas criaturas de maneira orgânica (e com uma paleta menos lúdica – leia colorida – como os episódios I ao III) e joga poeira na aeronáutica rebelde, conseguindo unir o digital de hoje em dia com os arranhões das miniaturas de 40 anos atrás, além das divertidas e dinâmicas tomadas de ação empregadas pelo diretor Gareth Edwards (onde muitas vezes acompanhamos as naves através de uma câmera subjetiva, e entendemos as manobras mais arriscadas) conseguem nos fazer voltar à época do original de uma forma mais do que renovada: imortalizada. Edwards, já tendo feito um trabalho realista no improvável Godzilla (2014), aqui usa toda sua imaginação visual para exaltar o universo nas cenas paradas e movimentá-lo em um nível frenético nas cenas mais tensas.

Parece que tudo orbita em torno desse mesmo tom. Até a música-tema e a introdução, batidíssimas já no Episódio VII, dessa vez surgem subvertidas dentro de uma trilha sonora solene e que arrisca a todo momento se tornar a versão pobre dos temas clássicos, em uma participação surpreendentemente contida de Michael Giacchino. O músico consegue adiar a fatal aparição até o último momento, e em cima de nossas expectativas recria uma versão alternativa, e muito mais eficiente justamente porque renova o universo panfletário, justificando o título de uma história Star Wars (mas não “A” história).

Mas apenas a história parece ser acessória em Rogue One, e isso se compararmos à história central do universo, já que ela por si só se sustenta perfeitamente. Tem começo, meio e fim. Apresenta novos personagens e homenageia/referencia/recria alguns antigos. Mas não os mantêm como muletas. É uma criação única, a realização de um desejo antigo, secular, dos fãs do universo que aspiravam por novos horizontes. Além do mais, utiliza temas filosóficos (“o que torna um droide único”) através do humor (“você sabia que não era eu, certo?”), e temas políticos (quando a democracia falha pelos mesmos motivos apontados por Anakin em Episódio II) através da ação.

Enquanto o Episódio VII não consegue se desvencilhar das homenagens, e repete mecanicamente elementos dos episódios IV e V, além de falhar nos detalhes originais, aqui até o uso diferente da Estrela da Morte é eficientemente usado, entregando não o absurdo puro e simples, mas uma concatenação de eventos em torno de um cataclisma de horror. É nesse momento que o roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy mais brilha, pois consegue conciliar o dramático com o escape cômico (“algo novo no horizonte… não há horizonte”), apresentando um novo droide que, contrariando mais uma vez o efeito Jar Jar Binks, consegue ser até mais eficiente que o verborrágico C3PO, pois além de seu uso pontual consegue trazer uma espécie de rascunho de personalidade.

Pecando apenas ao estender excessivamente o segundo ato, além de não apresentar um desenrolar muito surpreendente para esta parte do filme, Rogue One é tudo o que se esperava de um spin-off de Star Wars na pós-era digital, quando os efeitos começam a ficar cada vez mais realistas, a ponto até de algumas caras desconhecidas virem à tona. E mesmo que a perda recente de Carrie Fisher não tenha fornecido o timing perfeito para os devidos agradecimentos deste trabalho ao seu legado, tenho certeza que muitos fãs irão enxergar a homenagem contida na última cena. Algo que só a mágica do cinema consegue fornecer. Ou seria a Força?

★★★★☆ Título original: Rogue One. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Gareth Edwards. Roteiro: Chris Weitz. Tony Gilroy. John Knoll. Gary Whitta. George Lucas. Elenco: Felicity Jones (Jyn Erso). Diego Luna (Cassian Andor). Alan Tudyk (K-2SO). Donnie Yen (Chirrut Îmwe). Wen Jiang (Baze Malbus). Ben Mendelsohn (Orson Krennic). Guy Henry (Governor Tarkin). Forest Whitaker (Saw Gerrera). Riz Ahmed (Bodhi Rook). Edição: John Gilroy. Colin Goudie. Jabez Olssen. Fotografia: Greig Fraser. Trilha Sonora: Michael Giacchino. Duração: 133. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Action. Tags: cinema oscar2017

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