Samba

Filme que faz uma crítica (válida) ao sistema de imigração francês, mas ao mesmo tempo flerta com a mistura de culturas e experiências. Tenta abraçar o mundo com essa ideia, dá seus tropeços por causa disso, mas ainda mantém sua força dramática nos ombros da sempre competente atuação de Omar Sy (Intocáveis), que faz o papel de um trabalhador africano ilegalmente por 10 anos, e que mesmo assim é preso e condenado a sair do país (curioso a sentença não definir para onde, pois isso não importa para a justiça francesa).

Do outro lado, ou melhor dizendo, servindo como uma ponte, está Charlotte Gainsbourg, em seu papel acidentalmente cômico e que por algum motivo ela não se sai tão bem quanto em Ninfomaníaca, um papel que também mesclava drama com humor. Aqui ela trabalha como voluntária em uma ONG que auxilia os imigrantes ilegais a conseguir melhores condições de resolver suas pendências. Desnecessário dizer, eles vivem um amor, ainda que quase platônico.

Algumas reviravoltas fazem com que ele participe de uma aventura amorosa que faz com que ela confesse seus interesses para com o rapaz. A farsa é tão mal montada que dá vontade de desistir desse casal, mas não do filme, nem dos seus personagens. Temos a supervisora dela, que finge distanciamento, assim como a França faz, com os imigrantes, mas no fundo sabe que eles existem, são reais, e há de se fazer algo. Samba prefere investir em coincidências e tropeços do amor, mas garante momentos icônicos o suficiente para virar uma experiência ótima a respeito do tema apesar dos relacionamento parecem jogados.

Omar Sy é um ator com uma capacidade curiosa de transformar uma cena dramática em cômica e vice-versa. Seu jeito carismático e seu tamanho não-desprezível o tornam o centro das atenções em um trabalho ambicioso que tenta fazer uma mescla de assuntos que giram em torno da imigração ilegal. O que levanta uma questão que apenas os estados e seu poder incomensurável conseguirão responder: se o mundo e as culturas dos povos estão tão globalizados, por que imigração ainda é um problema?

Isso na França é mais sintomático ainda. Um país de bem-estar social, o custo de manter um estado como o deles torna suas fronteiras trabalhistas protegidas. Crises eventuais fazem com que o povo se vire contra os que vem de fora. Sem ter como se legalizar facilmente, os forasteiros vivem um dia-a-dia de medo e preocupação enquanto arrumam qualquer emprego para sustentar suas famílias, e tentam manter o foco no futuro.

O roteiro, escrito a oito mãos, não é ingênuo de não levar em conta que tudo isso é uma situação que torna o uso de algumas nacionalidades mais favoráveis (como os brasileiros). Ao mesmo tempo, também não ignora que a situação dos imigrantes africanos é muito pior de onde vem. Guerras, fome, conflitos internos que parecem nunca acabar e que tornam empregos como coletor de lixo, lavador de pratos e limpador de janelas situações infinitamente melhores do que os espera em sua terra natal.

Enquanto isso, olhando para dentro, temos a pressão do trabalho mais especializado. Charlotte Gainsbourg faz essa parte com precisão. Mulher de negócios que lutou a vida inteira por um objetivo que todos têm, mas ninguém está satisfeito com ele (talez por não fazer parte de ninguém), acaba explodindo em um acesso que termina em um celular na cabeça de um de seus subordinados. Tentando rever sua vida na tal ONG e… e o resto é essa salada de situações. Bonitinho por fora e por dentro, Samba pode ser considerado uma tentativa bem-sucedida de falar de vários temas, ainda que não consiga juntá-los de maneira satisfatória.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-09-08. Samba. Samba (France, 2014). Dirigido por Olivier Nakache, Eric Toledano. Escrito por Delphine Coulin, Muriel Coulin, Olivier Nakache, Eric Toledano. Com Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izïa Higelin, Isaka Sawadogo, Hélène Vincent, Youngar Fall, Christiane Millet, Jacqueline Jehanneuf. imdb