Samurai X 1: O Filme

Oct 5, 2015

Imagens

Em um momento do filme um personagem fala: “Me mate”, no que o outro responde: “Morra”. Logo depois, algúem diz: “Seja bem-vindo de volta”, no que o outro responde: “Estou de volta”. Acredito que isso sirva para demonstrar um dos grandes erros em Samurai X 1: O Filme: sua redundância. Com uma duração de duas horas e 14 minutos, o diretor Keishi Ohtomo (Samurai X 1: O Filme, Samurai X 2: O Inferno de Kyoto, Samurai X 3: O Fim de Uma Lenda… “Samurai X 4: Antes do Início”?) parece ter se empolgado um pouco demais com o personagem nascido dos mangás (e posteriormente anime).

Estamos no Japão, na era Meiji, a primeira em que o Império começa a se modernizar (e se ocidentalizar), no final do século 19. O início com uma sequência que indica que a era da pólvora já começou por lá deixa isso claro. Uma piada curiosa do filme é quando alguém diz ser vegetariano, algo um tanto inusitado para a época. Ou talvez nem tanto, considerando que o herói da história flerta com a cultura emo, pois é um ex-assassino sanguinário que possui uma espada que não mata e tem sensibilidade (e rosto) de garota. Vivendo como um andarilho após ter se arrependido de sua vida de mortes – e ter ganhado uma cicatriz bonitinha em forma de X – Kenshin Himura é um personagem que se limita a responder aos outros como ele pretende matar alguém com a espada que carrega (dica: não pretende), além do filme se limitar a mostrá-lo quase sempre em um close de semi-perfil, com os cabelos na frente do rosto, com um olhar que, interpretado pelo ator Takeru Satô, não quer dizer coisa nenhuma o tempo todo.

Há também a recém-nascida polícia de Tóquio (ou o que seria no futuro), que pretende manter uma era de paz e prosperidade para o novo país, encabeçado pelo seu observador chefe Saito Hajime (Yôsuke Eguchi). No entanto, eles terão problemas com os ricaços do ramo do ópio, como o exagerado Takeda Kanry¿ (Teruyuki Kagawa), um aficionado por armas que resolve tudo através do dinheiro, inclusive mantendo um exército de ex-samurais famintos, que após a última batalha ficaram “desempregados”. Fechando a lista principal, temos uma ancestral de Walter White de Breaking Bad, Megumi Takani, interpretado pela bela Yû Aoi e que faz um ópio como ninguém (embora isso apareça apenas uma vez e de maneira a condenar a prática), além da idealista Kaoru Kamiya (Emi Takei), que mantém uma escola de luta com espadas que – vejam só – também mantém a filosofia de não matar. Aparentemente a máxima “armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas” estava sendo usada à risca naquela época.

Com uma fotografia e direção de arte que parece polir bem uma pérola novelística, “Samurai X” se sai bem nos quesitos técnicos, e consegue ter pelo menos duas sequências interessantes de luta, embora em sua maioria tudo seja uma confusão e o batido efeito de slow motion que já não consegue ser tão efetivo. Já a trilha sonora, fortemente influenciada pelo conteúdo televisivo japonês – especialmente, claro, os animes – atrapalha mais do que ajuda, tentando criar temas em torno de seus personagens, e fazendo tudo soar episódico e passageiro, o que não combina em nada com o tom da direção, que parece tentar contar um épico com muito pouco fôlego.

Comprometido provavelmente pelo baixo orçamento, o Japão que vemos é restrito, o que é uma pena, pois adoraria ver uma visão artística dessa época. Se limita a uma cidade-cenário daquelas do estilo minissérie global. No entanto, o uso da fotografia em diferentes tons (dia, noite, tarde, chuva) e o abuso dos movimentos de câmera flutuante (em determinado momento temos até uma bela troca de eixo, quando vemos Kenshin de cima para logo em seguida enxergarmos o corredor à sua direita) consegue distrair o suficiente para tudo não soar ainda mais repetitivo. A quantidade de extras nas cenas de luta também é um bônus, apesar de todos eles se limitarem a realizar aqueles gestos que vemos em séries de super-heróis como Changeman e Power Rangers.

Medíocre como narrativa e devendo muito como história, sua grande decepção é adotar o tom politicamente correto e virar um filme de samurai pós-era de samurais para crianças. E em seu terceiro ato parece mais disposto a fixar seus personagens em torno do que será o começo de uma série de filmes do que de fato concluir alguma coisa de maneira mais impactante. Entregue aos clichês dos filmes desse gênero, temos os dois clímax já conhecidos (aproveitando até que temos duas mocinhas) e nenhum deles funciona muito bem (por que se render quando basta fugir? de onde vem a magia do personagem misterioso?). Alguns roteiros de jogos já conseguem ser mais criativos que isso. Talvez seja hora das produções de animes live-action repensarem seus enlatados.

Wanderley Caloni, 2015-10-05. Samurai X 1: O Filme. Rurôni Kenshin: Meiji kenkaku roman tan (Japan, 2012). Dirigido por Keishi Ohtomo. Escrito por Nobuhiro Watsuki, Kiyomi Fujii, Keishi Ohtomo. Com Takeru Satô, Emi Takei, Yû Aoi, Teruyuki Kagawa, Yôsuke Eguchi, Munetaka Aoki, Taketo Tanaka, Kôji Kikkawa. IMDB.