Saneamento Básico, O Filme

Dirigido e escrito por Jorge Furtado (O Homem Que Copiava, Meu Tio Matou um Cara), esta é praticamente uma obra didática a respeito da produção de um filme, desde a produção, argumento, roteiro inicial até a montagem, pós-produção, créditos finais. O esforço que o filme faz para que seu espectador perceba isso é tão irritante quanto tocante, já que cineasta brasileiro, muito provavelmente ele está acostumado a trabalhar com orçamento apertado, o que quase que justifica todos os maneirismos que sua direção (e seu elenco) aplicam ao roteiro, tornando este um trabalho digno de nota por conta da realidade que o cerca, mas também pela maneira original com que a metalinguagem aqui é utilizada.

A história gira em torno de uma cidadezinha do Sul, onde vivem Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Fernanda Torres e até o digníssimo Paulo José. Sim, estou usando o nome dos atores, já que os personagens estão escondidos atrás de todas essas personas, já que o filme utiliza todos os atores famosos disponíveis para criar uma identidade com o público – só faltou o palhaço itinerante de Selton Mello visitá-los – mas arriscando com isso diminuir o realismo da cidade-estúdio. Bom, já que estou chamando os cenários de estúdio, talvez não seja muito bem um filme realista.

Ele é engraçado moderadamente e isoladamente. Suas piadas estão jogadas pelo caminho, e boa parte delas funciona graças ao elenco. Então, talvez para esse gênero, seja uma boa escolha, já que só o carisma desses atores para transformar suas atuações globais em algo um pouco além do simpático. Eles se esforçam um nível acima dos atores que eles viram quando começa a produção de um filme dentro do filme.

O objetivo desse filme – o filme dentro do filme – é possibilitar o desvio de uma verba perdida na sub-prefeitura para a construção de um esgoto na cidade, projeto esse já perdido no tempo, quando o pai da heroína da história – a Fernanda Torres; o pai é o Paulo José – ainda tentava conseguir alguma ajuda. Porém, como a verba estava destinada a um programa cultural, e seria um prêmio para um filme produzido na região, isso explica tudo.

É interessante acompanhar todo o desenrolar do projeto a partir do ponto de vista da Fernanda Torres, que é realmente a responsável por movê-lo desde o início. Reunindo ilustres cidadãos em uma reunião com cadeiras formando um círculo, Torres vai novamente para a sub-prefeitura tentar conseguir o dinheiro para o esgoto.

E aos poucos vão surgindo, a cada cena, detalhes da produção real de um filme, mas na figura dos personagens. Dessa forma, todos os elementos de produção vão ganhando terreno conforme o filme vai sendo feito. Isso envolve a criação de diálogos, o uso da câmera – Torres já escreve no roteiro a forma com que um monstro olhará para sua vítima, através dos “olhos” da câmera – o figurino, os investidores, os personagens, a trama. Quando entra em cena um montador super-empolgado – provavelmente ele editou casamentos demais – também temos uma visão do que é a edição/montagem, fotografia, trilha sonora e direção. Isso envolve também, claro, a quebra do orçamento. Como em qualquer filme.

É curioso que o didatismo do filme encontra rima não só com o elenco, mas com a própria direção de Furtado, que evita fazer qualquer movimento com sua câmera. Ele geralmente a deixa no plano em que consiga cobrir todos os atores em cena, e deixa rodar. Ele não quer complicar justamente para que o público perceba quantos detalhes estão em jogo na hora de produzir um filme. E isso lembrando que o filme dentro do filme deve ter 10 minutos, um desafio para seus idealizadores. Imagine um filme de duas horas.

Tenho sérias críticas a respeito da maneira com que o filme envolve os detalhes periféricos da arte e da politicagem envolvida na arte do Cinema brasileiro. Mas não falarei nada aqui. Isso estragaria o perfeito exemplo de como é complicado fazer filmes, e fazê-los funcionar. Os detalhes do lado de fora pouco importam depois que a multidão se reúne para ver o resultado final. E isso, passados todos os percalços, vale toda a pena.

E é isso o que Saneamento Básico, O Filme, tem de melhor.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-11-30 imdb