Saneamento Básico, O Filme

Nov 30, 2016

Imagens

Dirigido e escrito por Jorge Furtado (O Homem Que Copiava, Meu Tio Matou um Cara), esta é praticamente uma obra didática a respeito da produção de um filme, desde a produção, argumento, roteiro inicial até a montagem, pós-produção, créditos finais. O esforço que o filme faz para que seu espectador perceba isso é tão irritante quanto tocante, já que cineasta brasileiro, muito provavelmente ele está acostumado a trabalhar com orçamento apertado, o que quase que justifica todos os maneirismos que sua direção (e seu elenco) aplicam ao roteiro, tornando este um trabalho digno de nota por conta da realidade que o cerca, mas também pela maneira original com que a metalinguagem aqui é utilizada.

A história gira em torno de uma cidadezinha do Sul, onde vivem Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Fernanda Torres e até o digníssimo Paulo José. Sim, estou usando o nome dos atores, já que os personagens estão escondidos atrás de todas essas personas, já que o filme utiliza todos os atores famosos disponíveis para criar uma identidade com o público – só faltou o palhaço itinerante de Selton Mello visitá-los – mas arriscando com isso diminuir o realismo da cidade-estúdio. Bom, já que estou chamando os cenários de estúdio, talvez não seja muito bem um filme realista.

Ele é engraçado moderadamente e isoladamente. Suas piadas estão jogadas pelo caminho, e boa parte delas funciona graças ao elenco. Então, talvez para esse gênero, seja uma boa escolha, já que só o carisma desses atores para transformar suas atuações globais em algo um pouco além do simpático. Eles se esforçam um nível acima dos atores que eles viram quando começa a produção de um filme dentro do filme.

O objetivo desse filme – o filme dentro do filme – é possibilitar o desvio de uma verba perdida na sub-prefeitura para a construção de um esgoto na cidade, projeto esse já perdido no tempo, quando o pai da heroína da história – a Fernanda Torres; o pai é o Paulo José – ainda tentava conseguir alguma ajuda. Porém, como a verba estava destinada a um programa cultural, e seria um prêmio para um filme produzido na região, isso explica tudo.

É interessante acompanhar todo o desenrolar do projeto a partir do ponto de vista da Fernanda Torres, que é realmente a responsável por movê-lo desde o início. Reunindo ilustres cidadãos em uma reunião com cadeiras formando um círculo, Torres vai novamente para a sub-prefeitura tentar conseguir o dinheiro para o esgoto.

E aos poucos vão surgindo, a cada cena, detalhes da produção real de um filme, mas na figura dos personagens. Dessa forma, todos os elementos de produção vão ganhando terreno conforme o filme vai sendo feito. Isso envolve a criação de diálogos, o uso da câmera – Torres já escreve no roteiro a forma com que um monstro olhará para sua vítima, através dos “olhos” da câmera – o figurino, os investidores, os personagens, a trama. Quando entra em cena um montador super-empolgado – provavelmente ele editou casamentos demais – também temos uma visão do que é a edição/montagem, fotografia, trilha sonora e direção. Isso envolve também, claro, a quebra do orçamento. Como em qualquer filme.

É curioso que o didatismo do filme encontra rima não só com o elenco, mas com a própria direção de Furtado, que evita fazer qualquer movimento com sua câmera. Ele geralmente a deixa no plano em que consiga cobrir todos os atores em cena, e deixa rodar. Ele não quer complicar justamente para que o público perceba quantos detalhes estão em jogo na hora de produzir um filme. E isso lembrando que o filme dentro do filme deve ter 10 minutos, um desafio para seus idealizadores. Imagine um filme de duas horas.

Tenho sérias críticas a respeito da maneira com que o filme envolve os detalhes periféricos da arte e da politicagem envolvida na arte do Cinema brasileiro. Mas não falarei nada aqui. Isso estragaria o perfeito exemplo de como é complicado fazer filmes, e fazê-los funcionar. Os detalhes do lado de fora pouco importam depois que a multidão se reúne para ver o resultado final. E isso, passados todos os percalços, vale toda a pena.

E é isso o que Saneamento Básico, O Filme, tem de melhor.

Wanderley Caloni, 2016-11-30. Saneamento Básico, O Filme. Saneamento Básico, O Filme (Brazil, 2007). Dirigido por Jorge Furtado. Escrito por Jorge Furtado. Com Fernanda Torres (Marina), Wagner Moura (Joaquim), Camila Pitanga (Silene), Bruno Garcia (Fabrício), Janaína Kremer Motta (Marcela), Lázaro Ramos (Zico), Tonico Pereira (Antônio), Paulo José (Otaviano), Marcelo Aquino (Leonardo). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).