Sangue Negro

Com uma longa introdução sem falas que praticamente diz tudo que precisamos saber do protagonista para entender seus atos durante toda a longa, mas empolgante, história de sua ascensão na indústria do petróleo, Sangue Negro não perde o ritmo e o significado em nenhum momento. Sua fotografia é delineada por sombras e contornos nítidos no horizonte, sempre a nos lembrar do óleo negro, implícito em cada cena, mesmo que não esteja lá. E, quando está, não raro impregna a face das pessoas ou até as fere. Até a trilha sonora, baseada em sons ritmados, evocam a todo o momento as bombas puxando o petróleo para a superfície.

A fotografia do filme começa sépia, mas aos poucos se suja com o ouro negro. O filme de Paul Thomas Anderson (Embriagado de Amor) não é fácil de acompanhar, pois nos apresenta um vilão protagonista que é um mecanismo para a geração de riqueza na sociedade. Pior que isso só a igreja parasita (na figura do ótimo Paul Dano) que se vê no direito de sequestrar mentes e almas dessa mesma sociedade.

Esta é a história de um homem com a moral retorcida. Ele demonstra isso desde o começo, quando após um acidente um pai é morto e ele adota o recém-órfão para facilitar seus negócios com uma criança pequena, símbolo de homem de família. Seu objetivo é vencer as grandes companhias de petróleo da época, Stardard Oil e Union, mas para isso ele sozinho precisa cometer todos os crimes, o que o torna um monstro em vez de uma instituição de respeito.

O que Sangue Negro pode parecer do começo ao fim é um discurso anti-capitalista sem causa, mas o que ele verdadeiramente se torna está mais próximo da antropomorfização de um sistema que não enxerga ética ou moral. Nesse sentido tanto mega-corporações malvadonas ou governos injustos entram nesse balaio quando os fins justificam os meios. A diferença no julgamento do espectador é apenas se ele gosta ou não dos fins. Uma diferença meramente estética.

O personagem de Daniel Day-Lewis é um homem simples que vai construindo sua própria fortuna. Ele pisa sobre a simplicidade do homem do campo e da igreja. Ele não apenas os ignora, mas faz questão de deixar isso claro. Ele não suporta seus concorrentes e possui complexos a ser resolvidos. Ameaça de morte um negociante dessas gigantes do óleo porque para ele ou é do seu jeito ou é de jeito nenhum.

A trilha sonora é pitoresca. Ela exala a personalidade do sujeito com notas soltas, repetição de padrões mecânicos e uma melancolia eterna. PTA faz questão de tornar a trajetória deste capitalista uma coisa feia a ser evitada. Mas para isso ele precisa ignorar que todos que passam por ele são ovelhas estúpidas esperando para serem sacrificadas. Este é um oferecimento do cristianismo.

Dito isto, é preciso agora voltar os olhos novamente para Daniel Plainview, encarnado até o osso por um Daniel Day-Lewis com um vigor/ganância sem fins. A grandeza de seus obstáculos, como a igreja e as grandes companhias, apenas reforçam a quase insanidade desse homem e servem de exato contraponto para medirmos o grau de maldade que se esconde por trás do seu até certo ponto melancólico personagem. Um outro grande feito do filme é conseguir usar um vilão como O Protagonista, onde encontramos eco em talvez Cidadão Kane (mais pelo benefício da dúvida, embora em Kane sigamos os rastros de testemunhos, e não a própria visão do personagem-título).

★★★★★ Wanderley Caloni, 2018-01-23. Sangue Negro. There Will Be Blood (USA, 2007). Dirigido por Paul Thomas Anderson. Escrito por Paul Thomas Anderson, Upton Sinclair. Com Daniel Day-Lewis, Martin Stringer, Matthew Braden Stringer, Jacob Stringer, Joseph Mussey, Barry Del Sherman, Harrison Taylor, Stockton Taylor, Paul F. Tompkins. IMDB.