Scarface: A Vergonha de uma Nação

Dec 29, 2015

Imagens

Antes que me perguntem, gosto das duas performances de Scarface no Cinema. Al Pacino é um cubano crível e o roteiro de Oliver Stone dá tempo para vermos o personagem maturar em sua ascenção e declínio como rei do crime. Não dá para fingir que ele não se inspirou, pelo menos levemente, na performance do filme original. Porém, grande ator que é, Pacino consegue sempre impregnar de naturalidade seus personagens.

Dito isto, o Tony de Paul Muni consegue ser muito mais coeso em um roteiro muito mais enxuto. Não vemos sua evolução desde o “não ter onde cair morto”, pois ele já mantém um relacionamento próximo de Johnny Lovo, o mafioso para quem trabalha na venda de bebidas ilegais e que controla parte da região sul da cidade. O relacionamento de Tony com o amigo Rinaldo também é visto meramente de passagem, embora no terceiro ato seja primordial, quando seu ciúmes incontrolável da irmã (Ann Dvorak) ganha contornos trágicos. Enfim, há detalhes que o filme de 83 amplicou, o que o torna mais rebuscado. Porém, estamos falando basicamente da mesma história e mesmos personagens.

A alma do(s) filme(s) é de autoria de nada menos que 10 roteiristas, incluindo Howard Hawks, o diretor. O que normalmente é receita para um desastre se transformou em um grande filme, icônico em seu tempo e memorável até hoje. Nada que ele contém está datado, e se visto em conjunto com seu remake, irá ampliar sua visão a respeito de que se constitui uma máfia.

Aqui Tony vem de uma família italiana, e há um breve discurso sobre enviar de volta os imigrantes que se tornaram criminosos, que se transforma em ironia no remake, quando os EUA declaram que irão receber os cubanos de braços abertos (entre eles seus criminosos como Tony Montana). Ambos os Tonys são rapazes com estilo bonachão, mas ambiciosos – ou loucos – o suficiente para se manter focado em seu destino de ter todo o mundo para si. O mundo, no caso, é o controle total da venda de bebidas da cidade, além do amor da mulher de seu chefe, a bela e fútil Poppy (Karen Morley). Várias metáforas são criadas para visualmente nos apresentar a história, como uma peça de teatro onde uma bela dama é disputada por dois rapazes.

Mas, voltando à ironia, é absolutamente hilário comparar as circunstâncias em que as duas histórias ocorreram. Na primeira, a lei seca americana causou a formação de quadrilhas que controlavam a venda e comercialização de bebidas, espalhando violência e medo nas cidades. No remake é o tráfico de cocaína o estopim para a formação de gangues, e onde sujeitos como Tony conseguem se aproveitar do sistema e galgar as posições mais acima da hierarquia de criminosos não-oficiais. Hoje, a lei seca não existe mais e é mais um exemplo de como a proibição de drogas gera violência e gastos incomensuráveis de recursos policiais apenas para tentar diminuir seu impacto.

O final trágico para Scarface acabou se tornando em um aviso e uma continuação trágica das medidas governamentais que assolam o mundo.

Wanderley Caloni, 2015-12-29. Scarface: A Vergonha de uma Nação. Scarface (USA, 1932). Dirigido por Howard Hawks, Richard Rosson. Escrito por Armitage Trail, Ben Hecht, Seton I. Miller, John Lee Mahin, W.R. Burnett, Seton I. Miller, John Lee Mahin, W.R. Burnett, Howard Hawks. Com Paul Muni, Ann Dvorak, Karen Morley, Osgood Perkins, C. Henry Gordon, George Raft, Vince Barnett, Boris Karloff, Purnell Pratt. IMDB.