Se Meu Apartamento Falasse

Jack Lemmon consegue a proeza de fazer dois personagens absolutamente distintos em duas comédias de Billy Wilder um ano seguido do outro. A primeira, “Quanto Mais Quente Melhor”, Lemmon faz com Tony Curtis dois foragidos da polícia que se vestem de mulher e participam de uma banda que contém ninguém menos que Marylin Monroe. Já em “Se Meu Apartamento Falasse”, Lemmon mora em um apartamento que serve de pulada de muro para seus “amigos” no escritório, incluindo um deles que tenta levar uma loira parecida com Marylin Monroe. O detalhe é que a única semelhança é que ela é loira.

Tanto em Quanto Mais Quente quanto em The Apartment, a energia do filme é inabalável, mesmo com uma comédia romântica de duas horas. Os diálogos, nível Wilder, são engraçados, de forma icônica, às vezes inteligentes demais para seus personagens, mas nunca deixam de ser originais. Wilder e Lemmon conseguem construir um bom samaritano que sofre quando as coisas saem do controle e agora é obrigado a ceder seu apartamento para seus colegas afim de conseguir uma promoção e não ser demitido. Quando a coisa bate no chefe de cima, é a ele que o personagem de Lemmon deve satisfação. O sexo no escritório nos anos 60 é tratado de uma maneira engraçada mas crítica, não muito diferente do espírito da série “Mad Men”, onde as secretárias e recepcionistas almejam a posição da esposa de seu chefe como quem tenta viver um sonho impossível. Exceto, talvez, pelo senso de humor característico do diretor/roteirista do espírito humano.

O esgotamento moral que a pequena Fran Kubelik (Shirley MacLaine) e o simpático C. C. Baxter (Lemmon) têm que passar é o que acaba os unindo, mas não de maneira tão fácil. Sabemos que ambos possuem um ao outro, mas o filme nunca entrega isso fácil. Como estamos em uma comédia irônica, isso pode nunca acontecer. Porém, sempre haverá uma próxima grande cena que conquista o espectador pela simplicidade e eficácia em explorar seus personagens.

Shirley MacLaine faz a mocinha da série Mad Men em um formato particularmente melancólico. Apaixonada pelo chefe de Baxter, ela já se apaixonou três vezes, apesar de apontar quatro no dedo. Ela não conseguiu a vaga de secretária por não saber soletrar, e quando entra na arapuca do homem casado, parece estar totalmente ciente disso, mas não consegue sair, como se estivesse em uma areia movediça que ela própria se colocou. Seu cabelo curto a destaca da multidão, mas o que a destaca mais são suas observações ácidas sobre a própria situação.

Já Jack Lemmon exibe o mesmo drama do lado masculino. Ciente de que precisa agradar seu chefe para manter sua escalada na empresa em tempo recorde, ao mesmo tempo revive um drama que passou quando se apaixonou pela mulher de um amigo. Porém, aqui ele não está apaixonado, mas apenas gosta dessa pessoa, o que torna tudo mais cruel, pois ele enxerga tudo que acontece com sua garota perfeitamente sóbrio. Sua fala e seu sorriso indicam controle sobre tudo, mas seus olhos tristes dizem outra coisa. Da mesma forma com que o preto e branco o filme, lindo de morrer, com luzes que exaltam o charme de Nova Iorque, mas, mesmo assim, melancolicamente solitário.

A direção de Wilder, como sempre, é econômica e eficaz. Sua única transição entre cenas que me lembro é de um espaguete para um enfeite de ano novo. Sua única piada metalinguística envolve uma arma e um champanhe. Suas transições são ágeis para nunca perdermos o fio da meada, e seu melhor momento é na véspera de natal, quando Baxter fica dançando ad eternum com uma qualquer que encontra no bar, enquanto Fran se desespera sozinha no apartamento do rapaz. O que se segue após essa sequência é o melhor que o cinema de Wilder consegue alcançar em termos de envolvimento. E só isso já está milênios-luz da maioria das historinhas de romancezinhos modernos.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-07-19. Se Meu Apartamento Falasse. The Apartment (USA, 1960). Dirigido por Billy Wilder. Escrito por Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Com Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack Kruschen, David Lewis, Hope Holiday, Joan Shawlee, Naomi Stevens. imdb