Sense8 S02: Amor Vincit Omnia

Jun 17, 2018

Imagens

O cancelamento da série Sense8 pela Netflix nos apresentou um exemplo muito óbvio de como séries bem-feitas não podem funcionar como filmes, pois foram concebidas para expandir o seu mundo personagem a personagem, caso a caso. Quase como uma novela bem feita. E no caso do delírio criativo, poético e existencial de Lana Wachowski, mais do que nunca.

O que ocorre no episódio/segunda temporada se torna um trabalho impressionante dos roteiristas em comprimir uma temporada inteira e todas as suas reviravoltas, incluindo até o final da própria série, resumido em 151 minutos. Para o espectador é exigido um nível de concentração e aceleração da narrativa acima do comum. Para uma série que exige um pouco de exercício mental, principalmente nos diferentes e diversos tipos de cortes entre os oito personagens principais conectados sensorialmente, e ainda mais quando estes entram em ação e exibem cada um suas habilidades em “corpos” diferentes, essa condensação de arcos e reviravoltas é cansativo e vai parecendo aos poucos repetitivo. Quando pela segunda vez um determinado personagem é sequestrado já não temos muita fé de encontrar a redenção esperada desta trama “fora de série”.

Mas sejamos justos desde o começo. E a história recomeça a partir de onde parou, pausando nas memórias e consequentemente na história da infância de Wolfgang (Max Riemelt), um dos dois reféns (um de cada lado da guerra entre espécies) mantido pela organização criminosa da série. Essa é a parte mais singela e mais bela da série, pois depois de acompanharmos a mudança da consciência de pessoas localizadas em espaços diferentes, a transição feita entre o Wolfgang pequeno e já adulto é a mesma transição que qualquer Homo Sapiens está fadado a fazer no decorrer de sua vida. Presos em suas memórias de quem fomos para nos definirmos quem somos e a partir disso viver o quem seremos, somos seres inevitavelmente contidos no tempo; mas nunca somos a mesma pessoa em tempos diferentes. Ao usar o mesmo “truque” narrativo já conhecido pelo espectador da série que é feito entre pessoas diferentes localizadas em lugares diferentes do planeta para a mesma troca, só que agora da mesma pessoa em espaço e tempos distintos, a diretora Lana Wachowski realiza a analogia mais bela que poderia se esperar de uma série cheia de brilhantes ideias a respeito de quem somos: consciências separadas vivendo neste mesmo planeta. E por nunca tentar explicar isso com diálogos expositivos esse se torna também o momento mais econômico.

Iniciando com esse conjunto de transições inspirador, o episódio vai aos poucos se entregando à fórmula já consagrada para os fãs onde há momentos cômicos misturados com momentos de tensão e muita trilha sonora (muitas vezes repetida demais) para ligar esses estados de humor que balançam ao sabor do vento para o respiro do espectador. Isso acontece muitas vezes no mesmo quadro, quando um grupo se concentra em rastrear a vida de Sussurros (Terrence Mann), o maníaco por trás da organização criminosa, enquanto ao fundo vemos o ator do grupo treinando para seu papel. Esse paralelismo é interessante como experimentação, mas em um clima corrido do episódio soa mais como uma tentativa de contar vários acontecimentos o mais rápido possível.

E isso pode-se dizer também dos fechamentos românticos, que são muitos, e que são resolvidos com uma leviandade que soa como desleicho desde o começo. Sim, é preciso perdoar os roteiristas por esses atropelos, pois estão trabalhando com o conteúdo para pelo menos 640 minutos em menos de um quarto desse tempo, mas é necessário também ressaltar que alguns arcos nunca precisariam ser fechados. Principalmente o de Doona Bae, este que soa o mais cafona e jogado de todo o episódio. E o que dizer da resolução na última cena para a mãe da transexual que não a aceita, um verdadeiro bolo ex-machina?

Por outro lado, voltando aos pares românticos, revelar um possível caminho do triângulo amoroso formato pelo casal de indianos e Wolfgang poderia ser previsto pelo objetivo inclusivo da série de todas as formas de amor, e isso é louvável, mas mais uma vez a agilidade com que isso se resolve faz tudo perder seu peso. Através apenas desses exemplos pontuais é possível perceber ao mesmo tempo a força que a série teria em um tempo maior e o desperdício que isso gera em uma história que corre contra o tempo.

Atropelos em cima de atropelos, “Amor Vincit Omnia” é um projeto que começou já tendendo ao fracasso, mas que é simpático para o fã, que é o real objetivo desse fechamento de série. E se o real objetivo foi concluído, o projeto pode ser considerado um sucesso. O fracasso, no caso, é a decisão da Netflix em cancelar uma das poucas séries criativas e pulsantes da atualidade.

Wanderley Caloni, 2018-06-17. Sense8 S02: Amor Vincit Omnia. Escrito por Alexander Hemon, David Mitchell, J. Michael Straczynski, e as irmãs Wachowski. Dirigido por Lana Wachowski. Com Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Tuppence Middleton, Toby Onwumere, Max Riemelt, Miguel Ángel Silvestre, Brian J. Smith, Freema Agyeman. IMDB.