Sense8 - Segunda Temporada

2017/07/01

A segunda temporada de Sense8 é tudo o que estava sendo ensaiado na primeira, mas com muito mais intensidade, propriedade e coração. E conforme se aproximava do final foi ficando mais claro por que, mesmo com tanta qualidade narrativa e temática, ou justamente por causa dela, a série estava se despedindo por falta de fãs suficientes. As irmãs Wachowski sempre foram mestras em mesclar temas contemporâneos e filosóficos (Matrix), além de sempre deixar claro que, embora idealizadoras de blockbusters, estão sempre experimentando formas ousadas de contar uma história (Speed Racer), e mesmo quando as coisas não dão muito certo (O Destino de Júpiter) o resultado se mostra pelo menos digno de provocação. E acredito que toda essa gana de estar à frente de seu tempo acaba sendo um tiro pela culatra quando a popularidade é necessária. Sense 8 deixará saudades, mas apenas para um público seleto que entendeu a mensagem por trás das suas provocações contemporâneas.

Continuando as aventuras do grupo de oito pessoas que estão com suas mentes conectadas embora estejam espalhadas pelo planeta e falem línguas diferentes – algo que é reduzido ao inglês ou dublagem local pela facilidade, mas que aqui funciona pela trama – a história segue o seu núcleo clichê de combater uma corporação que pensa em usar os poderes de conexão para o mal, mas mais importante que isso, avança nos dramas e vidas de cada um dos oito personagens de forma equilibrada e entrelaçada. A grande sacada de Sense8 não é seu trocadilho (“sensate”), mas compreender que somos hoje uma tribo global, a procurar compreensão e ajuda nos outros, seja nas habilidades ou apenas na empatia. É uma possibilidade que tem o potencial em de fato nos unir.

E isso independe das diferenças. Muito menos que nas semelhanças. Seus personagens são estereótipos convenientemente colocados para chocar o senso comum e ao mesmo tempo nos fazer enxergar que não somos tão diferentes das pessoas que muitos de nós ainda julgamos. Há nele um ator gay que vive um personagem durão nos filmes. Na vida real ele é uma gelatina de pessoa. Há outra personagem gay, que é uma hacker habilidosa e uma transexual. (E você achou que não havia maneira bem-humorada de uma mulher saber mexer seus dedos e seu cérebro freneticamente, seja em frente ao computador ou sua namorada.) Também há uma DJ islandesa e um policial de Chicago que conseguem se tornar os mocinhos de maneira natural. Mas é claro que o arco dramático mais poderoso é de Donna Bae, que faz uma ricaça coreana que perde toda sua família, vai presa e busca uma vingança que a transformará por dentro.

Sense8 também busca discutir política, desajeitadamente, mas que graças ao poder visual narrativo da série, ainda assim soa grandioso. É assim em um discurso da parada gay de São Paulo, da mesma forma como é o discurso do queniano que vira político, seguindo os passos do pai militante. Há uma complexa ligação não apenas nos personagens da série, mas com o seu passado e futuro. A série não poderia explorar a história de cada um de seus personagens melhor, mas poderia pelo menos criar uma trama mais complexa do que vemos, digna de telenovela, embora uma telenovela deliciosamente amável de acompanhar.

Isso fora as tecnicidades de seus episódios, que nos colocam em volta do globo graças a uma computação gráfica competente, em diferentes paletas de cores, diferentes nascer e pôr do sol e diferentes conversas a dois ou a três, em cortes precisos, criativos e que vão exigindo cada vez mais do espectador, que precisa se situar às vezes em três, quatro ou até cinco cenários diferentes durante o mesmo diálogo. Tudo isso é feito de uma maneira harmoniosa e dinâmica, que nos faz não perder o fio da meada e ao mesmo tempo perceber, a todo momento, como estamos todos conectados de alguma forma, seja pela cadência de nossos pensamentos e sentimentos, ou por compartilharmos a humanidade em atos singelos do dia-a-dia.

★★★★☆ Sense8. USA, 2015. Direction: Lana Wachowski. Lilly Wachowski. James McTeigue. Tom Tykwer. Dan Glass. Script: J. Michael Straczynski. Lana Wachowski. Lilly Wachowski. Cast: Doona Bae (Sun Bak). Jamie Clayton (Nomi Marks). Tina Desai (Kala Dandekar). Tuppence Middleton (Riley Blue). Max Riemelt (Wolfgang Bogdanow). Miguel Ángel Silvestre (Lito Rodriguez). Brian J. Smith (Will Gorski). Freema Agyeman (Amanita Caplan). Daryl Hannah (Angelica Turing). Edition: Joseph Jett Sally. Joe Hobeck. Fiona Colbeck. Cinematography: John Toll. Soundtrack: Johnny Klimek. Tom Tykwer. Runtime: 60. Ratio: 1.78 : 1. Gender: Drama. Release: 5 June 2015 (internet). Category: blog Tags: netflix sense8 series

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