Sense8

Essa é uma série que tem todos os motivos de ser “acusada” de novela, no sentido da história estar totalmente focada nas reviravoltas amorosas de seus personagens. Mas o que dizer quando o destino amoroso do personagem X, Y e Z estão unidos de uma maneira tão fantástica que é impossível de disassociá-los e montar a velha tabela par romântico ou trio amoroso?

Curiosamente, existe um trio amoroso na história. E existe um drama familiar. Também existe um policial honesto, uma hacker “do bem”, um assassino cruel, um casamento errado e a união de tudo isso através da música. Lírico demais essa descrição? Eu diria transcedental. Assim é o novo trabalho dos irmãos Wachowski (A Viagem, Speed Racer, V de Vingança), que flertam tão bem com a novela quanto com a cena de ação, ou a luta de um contra todos, ou até a cena mais trivial de todas: o descanso no fim do dia, no por-do-sol.

Curioso que falar apenas em por-do-sol não é suficiente em Sense8, uma série que contém protagonistas espalhados pela maioria dos continentes, falando inglês por todos os cantos. Claro que sabemos que essa é uma “licença poética”, e que os personagens da Coreia do Sul, por exemplo, estão falando coreano entre si (embora para nós seja inglês, mesmo). Também sabemos que alguma lógica relacionada ao tempo de duração de um dia também deve ser relevado. Aliás, todos os detalhes da vida real parecem ter sido suspensos para dar vazão ao tema principal da história: alguns seres humanos possuem a capacidade de se conectar na distância de meio planeta e mesmo assim conversar como se estivessem na mesma sala. Oito deles começam essa jornada.

Da lista de improbabilidades, estas oito pessoas estão espalhadas entre diferentes etnias, de lugares exóticos a cidades grandes. E quais as chances de entre oito pessoas escolhidas ao acaso duas serem gays? E de gêneros diferentes? É óbvio que os trabalhos de de Andy e Lana Wachowski, desde pelo menos Matrix, é cercado de esoterismo, relacionamentos andrógenos e descoberta da sexualidade. Eles são muito bons em escolher o casting dos seus trabalhos mais sexy, e deu vontade de vibrar em ver Mila Kunis em seu último filme, o médio O Destino de Júpiter (além de Donna Bae de Cloud Atlas ser um achado). Aqui não é diferente, mas com a sensação que há um filtro elegante e até atraente dos diretores em escolher a beleza que melhor se encaixa em cada personagem sem nunca apelar para as batidíssimas maquiagens que plastificam e idealizam a beleza photoshopada. O uso da luz em Sense8 atinge os personagens, o que é uma maneira sutil de dizer que eles não são inatingíveis, como muitos heróis dos tempos atuais nos parecem.

E já que estamos falando de beleza e sensualidade, o pacote Netflix, em que violência e sexo não são apenas desejados, mas liberados em qualquer momento da trama, coube muito bem no estilo dos diretores e sua equipe, e cenas como uma orgia que não conhece a noção de limite espacial não é apenas divertida pelo seu conceito, mas é um dos grandes momentos da cinematografia dos dois, e mais uma memorável cena Netflixeana, assim como o menage em House of Cards (segunda temporada). Essa falta de limites, no entanto, pode ceder alguns exageros que são controversos. Não no sentido moral da coisa, mas no estético, mesmo, e ainda estou em dúvida se foi uma decisão acertada mostrar a vulva e todo o orifício de diferentes recém-nascidos. Talvez seja mais um problema de computação gráfica. Nesse caso a estética falou mais alto, e quase a série sai dos trilhos.

Porém, sair dos trilhos mesmo é algo que Sense8 não fez em nenhum dos seus primeiros doze episódios, e mesmo que não tivesse sido fantástico em todos eles – na verdade, quase nenhum – , ele mantém uma coleção razoável de momentos memoráveis, muitos deles que merecem ser revistos. Uma pena que para rever, tenhamos que passar por tanta novela, por tanto embaraço e por tanto estica-estica. Sim, ele não é livre de defeitos. Eu diria que tem tantos defeitos quanto qualidades. Porém, pela ambição de suas qualidades, os defeitos ficam escondidos (com exceção da longa duração da experiência).

Ao final, a história, essa longa e quase irrelevante trama, não merece ser discutida. Escolha assistir Sense8 exatamente pelo que seu título sugere: sensações. Reflexões. Será que estamos mesmos conectados? Com um mundo onde a notícia atinge a velocidade da luz, não importa de qual aldeia indígena, a melhor pergunta seria: será que os humanos estão realmente desconectados como imaginam?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-07-06 imdb