Sete Homens e um Destino

Remake do clássico de Akira Kurosawa em 1960, série televisiva em 1998, e agora uma revisita muito bem-vinda à história da defesa dos fracos e oprimidos por matadores profissionais. Menos pela discussão da questão da honra dos sete homens do título; mais como lente de aumento das mudanças ocorridas nos EUA que o fizeram sair do título de país da liberdade para uma ditadura socialista em questão de décadas.

A visão atualizada contém um elenco afiado e transformado para a época do velho oeste, que inclui um peregrino clássico, jusnaturalista religioso extremamente realista (e inspirador) interpretado por Vincent D’Onofrio, um apostador inundado de superstições e remorso (Ethan Hawke), um alívio cômico que contém ainda a energia necessária para as cenas de ação (o cada vez melhor Chris Pratt), e o inspiradíssimo Denzel Washington, que, digno de prêmios, recria o líder da gangue montada para defender o território de fazendeiros/mineiros das garras do monstro capitalista encarnado por Peter Sarsgaard.

Mas eu disse monstro capitalista? Sim, infelizmente é verdade. Toda aquela alegoria do original alertando para o perigo dos bandidos que apelam para a necessidade de sobrevivência (vulgo governo) como permissão para escravizar inocente foi deixada de lado para a visão atual de uma das nações mais socialistas da história, onde o real vilão é oculto da população, e no lugar o espantalho do capitalismo como um deus, que queima igrejas e faz as pessoas se ajoelharem perante o ouro.

É nesse nível capenga, simplista e equivocado que o vilão em Sete Homens e Um Destino se pauta, o que torna tudo muito confuso desde o começo. Portanto me sinto obrigado a fazer uma correção moralmente necessária: Bartholomew Bogue, que se compara ao magnata Rockfeller (o que salvou as baleias fazendo o preço do óleo diesel despencar), não é, nunca foi e nunca será um capitalista no senso da palavra, mas apenas um selvagem com armas e poder de fogo para contratar mercenários. Ele não respeita o direito único daquelas pessoas: manterem suas propriedades. Porém, mesmo assim, o filme chama-o de capitalista como um espantalho que mal serve como combustível para a reunião de sete caçadores de recompensas.

Mas a gangue de body hunters se reúne mesmo assim, quase como que na reunião em Esquadrão Suicida, onde em determinado momento não faz mais o menor sentido estarem juntos. Aqui não faz sentido desde o começo. Mas quem liga? O importante é dar a sensação de vitória após uma sequência cheira de tiros, explosões, cavalos e uma trilha sonora que engrandece o vácuo temático de um filme que costumava ser bom pra caramba. E se antes a âncora moral era o herói enterrar um ser humano de maneira digna porque é o certo a se fazer, hoje ele apenas uma necessidade politicamente correta de inserir asiáticos, mexicanos, negros e indígenas lutando contra as forças malignas do capital, pelo bem da coletividade. A degradação moral estadunidense encontra mais um exemplo digno depois da trilogia O Poderoso Chefão, que aponta a mesma derrocada vinda das figuras corporativismo e da igreja.

Porém, não é nem tematicamente que o filme é medíocre. O diretor Antoine Fuqua mal consegue acompanhar um faroeste como se deve, tão lembrado pelos momentos icônicos em seus diálogos e nas ações de seus lendários personagens, seja nas mãos de mestres como Clint Eastwood ou Sergio Leone, ou até alguns enlatados italianos que capturaram a essência dramática do gênero, que não é para qualquer um. Infelizmente, do jeito que é narrado, se trata de um filme de ação mediocremente realizado, onde conseguimos acompanhar uma sequência interminável de tiroteio sem sentir muito pelos seus personagens. Não por eles não valerem nada, mas por não entendermos suas motivações. Esta é uma realidade onde é muito fácil ser morto; isso ficou claro. O que não ficou claro foi porque isso é relevante nessa história.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-10-12. Sete Homens e um Destino. The Magnificent Seven (USA, 2016). Dirigido por Antoine Fuqua. Escrito por Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni, Nic Pizzolatto, Richard Wenk. Com Denzel Washington (Chisolm), Chris Pratt (Josh Faraday), Ethan Hawke (Goodnight Robicheaux), Vincent D'Onofrio (Jack Horne), Byung-hun Lee (Billy Rocks), Manuel Garcia-Rulfo (Vasquez), Martin Sensmeier (Red Harvest), Haley Bennett (Emma Cullen), Peter Sarsgaard (Bartholomew Bogue). imdb