Sete Homens E um Destino

Um filme do velho oeste que é um remake do clássico de Akira Kurosawa, Os Sete Samurais, que acabou virando também meio um clássico. Sua estrutura é poderosa, mexe com heróis incidentais que resolvem salvar uma vila de camponeses das garras do Estado… quer dizer, de uma gangue de bandidos que rouba parte da produção de alimentos para eles próprios sobreviverem. É uma história que mexe com o teatral, mas que mantém sua tensão como todo bom e velho faroeste.

Filmado em technicolor e em widescreen (na proporção de épicos, 2.35:1), essa película está “empoderada” pela trilha sonora grandiosa, que três anos depois foi usada pela Marlboro em seus comerciais de cigarro. Porém, há melodias mais sutis e mais doces em uma história que mexe com a decisão moral tanto do lado mais forte quanto do lado mais fraco, e apresenta um vilão com senso de liderança e um surpreendente bom senso, que tenta evitar conflitos onde eles não são necessários.

A discussão gira em torno de fazer o que é certo (moralmente falando), mas também mexe com a função e necessidades daqueles foras-da-lei, seja do lado do bandido ou do mocinho. Os bandidos são parasitários, e precisam do fruto do roubo para sobreviverem, então possuem uma justificativa usada por quase todo mundo para a existência de um Estado (“e as pessoas vão morrer de fome?”). Os mocinhos, apesar da glória de serem exímios atiradores e terem uma vida sem regras e com emoção, parecem cansados desses altos e baixos, e de certa forma invejam a forma de vida pacífica daqueles camponeses.

Os tiroteios são decentes, e alguns momentos possuem uma visão estratégica contagiante. Não se trata apenas de uma série de duelos e troca de tiros, mas também de envolver os tiros em torno da motivação de cada lado. Em determinado momento os próprios camponeses tomam uma decisão menos arriscada, mas não é possível julgá-los de maneira simplista, como vemos logo em seguida através de uma ótima cena do ainda “jovem” Charles Bronson, que faz o mestiço Bernardo.

O pilar de todos é o inusitado, careca e de preto Yul Brynner, que faz um atirador que escolta junto de seu amigo um carro funerário para dar um enterro digno a um índio no meio de uma população brutalmente ignorante e racista. Essa sequência inicial é o que precisamos para a iconografia desses meninos, que herdam de John Wayne a figura do bom mocinho americano, mas que possuem em suas testas a marca das consequências dos seus atos.

Ganhando pontos pelo realismo de personagens que remetem a estereótipos do gênero, mas ainda com uma conclusão que torna um pouco confuso entender qual a moral dessa história, Sete Homens e um Destino merece figurar como adaptação que deu certo. Possui toda a farofa norte-americana, é claro, mas quem disse que histórias com samurais também não é farofa com arroz?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-03. Sete Homens E um Destino. The Magnificent Seven (USA, 1960). Dirigido por John Sturges. Escrito por William Roberts, Walter Bernstein, Shinobu Hashimoto, Akira Kurosawa, Walter Newman, Hideo Oguni. Com Yul Brynner (Chris Larabee Adams), Eli Wallach (Calvera), Steve McQueen (Vin Tanner), Horst Buchholz (Chico), Charles Bronson (Bernardo O'Reilly), Robert Vaughn (Lee), Brad Dexter (Harry Luck), James Coburn (Britt), Jorge Martínez de Hoyos (Hilario). imdb