Sete Psicopatas e um Shih Tzu

Você irá rir pelos motivos errados. Este é um filme que apresenta a realidade de um escritor de Hollywood quando ele decide escrever um roteiro com sete psicopatas e zero violência. Não há a menor surpresa que ele não irá conseguir.

Apenas imagine a mente de um escritor habitada pelos seus personagens, que insistem em não se encaixar no seu filme. No entanto, quando começamos a assistir um filme com esse nome onde o palco é Hollywood, se torna imperativo que armas, mortes por vingança, máfia e todo tipo de golpe esteja em pauta. E quando isso de fato acontece, é como se tudo isso não se encaixasse.

Não por acaso. O roteirista (e diretor), Martin McDonagh (“Na Mira do Chefe”), faz parte do filme, na forma de um Colin Farrell um tanto apagado e mais observador. Ele está vivenciando o processo de criação, e te convida a participar. Mas seu amigo (Sam Rockwell, ótimo) é um idiota, chama sua namorada de vadia e está envolvido em um esquema de sequestro de cães que irá levar ainda mais complicações para sua vida. Ao mesmo tempo, ele tenta colocar tudo isso de lado e se concentrar para fugir dos estereótipos. Porém, ele próprio se torna um, com crise de criatividade e alcoólatra.

Temos também Christopher Walken que é Hans, em mais um papel memorável, ao lado de sua mulher, Myra (Linda Bright Clay), que acaba de operar um câncer. Sua história é a mais encantadora, e não é preciso muito esforço para gostar dela mesmo sabendo de todo o processo de criação e subversão das expectativas.

E esse é um filme que tenta subverter tudo, descontruir todos os estereótipos sobre filmes com violência, e a mostra abundantemente, sempre gráfica demais, inverossímil demais e ligeiramente deslocada. Ele está representado visualmente como uma prostituta que irá vestir um cinto de dinamites como parte da vingança de um ex-soldado vietnamita (que próximo do final vira outra coisa – não que nos importemos – muito mais genial).

Até as listas, tão famosas em filmes Tarantinescos, aqui recebe um tratamento especial, quando um elemento número 7 é, ao mesmo tempo, o número 1. Ah, e as mulheres morrem. Aos montes. E são burras, vulgares, passageiras. Nem essa parte nobre do cineasta responsável por Kill Bill sai ilesa. O filme flerta perigosamente em se tornar ruim discutindo porque tantos filmes com esse mesmo plot acabam sendo ruins.

Quando a história chega no deserto, ao passar do lado de uma icônica cruz, é onde o filme dá o seu melhor. A pressão dos personagens de Marty e seu filme com “tantas camadas” começa a influenciar na nossa visão sobre o que está acontecendo, de que lado, e como tudo isso se junta. Quase é possível ver as folhas de papel escritas pela metade, rasgadas e deixadas de lado. Personagens que se fundem, ou se dividem, ou um lembra o outro por semelhanças toscas, como o fato de ambos terem uma esposa negra. Há algo particularmente atrevido nesse roteiro, que torna alguns momentos de gosto duvidoso, mas que consegue extrair beleza metalinguística em outros.

Conseguindo encaixar até uma pista-recompensa a respeito dos créditos finais, Sete Psicopatas e um Shih Tzu é um filme sobre Cinema, para os que amam Cinema, mas não estão muito afim de discutir dramas clássicos ou nada muito profundo. É só que, às vezes acontece desse amor ser levado longe demais. Quase um “overkill”.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-04-24 imdb