Setembro

| Wanderley Caloni

February 2, 2019

Eu me lembro de Setembro em minhas noites acordado (tentando dormir) no quarto dos meus pais. Era o meu pai que colocava em algum canal na TV que aparentemente comprou o pacote completo de filmes do Woody Allen, os já produzidos e os futuros. Para uma criança que não entende nada de dramas humanos deve ter sido muito chato. Mas Setembro tem um momento tão fugaz e tão vulnerável que parece que o universo inteiro vai colapsar, e quando isso acontece até uma criança sente. E retém a cena. Eu me lembro dela até hoje, quando a revi.

Para todos que já assistiram você deve se lembrar dessa cena. É quando uma porta se abre e o que estávamos todos esperando, ainda que soubéssemos que seria um desastre, acontece. Mas deveria acontecer. Por quê? Eu não sei. Só não acho certo que segredos existam entre pessoas que conviveram tão de perto por tantas semanas na mesma cara de veraneio. O quão cruel, ou o quão correto, é desejar que segredos sejam revelados, ainda que isso possa custar a vida de uma pessoa?

Woody Allen é conhecido por comédias, mas eventualmente ele arrisca um drama. E aqui o diretor e roteirista nos joga para dentro de uma casa, durante uma noite e o dia seguinte, que poderia ser um palco. Mas Allen não dirige peças. Ele escala atores e começa a filmar o roteiro que escreveu em sua máquina. E agradeço a ele por isso, pois se esta fosse uma peça eu nunca teria tido a experiência de assistir este filme quando criança e agora, adulto, mais ciente deste drama caótico do universo que Allen tanto nos alerta. A magia do Cinema e das atuações que ficam para sempre.

Não apenas as atuações. Allen pega algumas de suas frases mais profundas e joga ocasionalmente na boca de um ou outro ator. É de uma atriz coadjuvante essa, falada quase casualmente: “o tempo vai passando e um dia você percebe que algo está faltando; futuro, isso é o que falta”. Para outro, um físico, quando questionado se trabalhou no projeto da bomba atômica, ele diz: “trabalhei em algo pior que a destruição do mundo; trabalhei para provar que este universo surgiu ao acaso e que nada tem algum sentido eterno”. Ou algo assim. O detalhe é que quando esses momentos são falados é inesperado, mas profundo e lindo justamente por isso.

E mesmo que seja nos diálogos e atuações que tudo se concentre, o diretor passeia com sua câmera, realizando giros e closes, porque no final das contas a geografia dos recintos daquela casa nos foge. Depois de oitenta minutos dentro de lá ainda é impossível dizer onde ficam as portas e passagens, porque Allen esteve envolvido com as atuações e nos quer viver aquele momento focado nas pessoas e desfocado do universo (incluindo a casa).

E o mais fascinante de tudo isso é conseguir perceber todos esses detalhes desse filme hoje mas não saber quando criança. Mas adivinha só? Aquela cena da porta se abrindo ficou no inconsciente todo esse tempo, todas essas décadas, e ela ainda é potente. Mas agora além dela há todo o resto, que por mais caótico que seja ainda é o que temos para viver. É como a personagem de Mia Farrow diz quando questionada se queria morrer. “Não quero morrer, e é esse o problema: eu queria tanto viver.”

Imagens e créditos no IMDB.

September. EUA, 1987. Escrito e dirigido por Woody Allen. Com Elaine Stritch, Denholm Elliott, Mia Farrow, Dianne West..