Sharknado 2: A Segunda Onda

Há uma coisa de se orgulhar da série Sharknado: ela não tem medo de passar vergonha. Os personagens ruins falando diálogos escritos por crianças de seis anos em situações absurdamente toscas parecem existir nesse universo por apenas um motivo: inserir no meio deles os tubarões voadores criados por uma computação gráfica que tornou o primeiro Sharknado “famoso”, tão famoso que gerou uma série de filmes. Porém, diferente da pretensiosa “saga” Crepúsculo, o objetivo da série é bem mais claro e honesto: “fale mal, fale péssimo, mas fale de mim”.

E é necessário falar sobre Sharknado 2, pois ele é tão ruim e irrelevante quanto o primeiro, mas ele gera a falsa impressão de estar arrasando como comédia acidental (aqueles filmes que são tão mal feitos que acabam ficando engraçados). Não está. Acompanhamos todas as sequências do filme com apenas um objetivo: aguardar o momento em que um tubarão vai surgir e matar ou ser morto de uma forma grotesca. Quando isso acontece, há a risada. Porém, no meio de todo o caminho, somos obrigados a acompanhar aquelas pessoas.

O que não é nada bom. Temos um taxista com frases… de taxista (“buzinar… buzinar sempre funciona. grande ideia! mas que tal… ultrapassar do lado?”). Temos o grande herói do filme anterior, que usou uma serra elétrica para sair de dentro do tubarão que o engoliu (e usa um dos dentes do animal em um colar). Temos a sua ex-esposa, que virou esposa, escreveu o livro da história do seu marido, que virou um best-seller, e agora perdeu a mão e a substituiu por uma serra (sabe como é, matar tubarões é uma atividade de tempo integral). E temos os comentaristas do jornal, que conseguem levar a sério toda essa história de mudança no tempo, tornado de tubarões, massa fria com massa quente, inundações e nível de “Sharknado” como se fossem terremotos (Nova Iorque vai ser bombardeada com um nível 4). Detalhe: eles conseguem falar de tudo isso sérios.

Mas o mais engraçado de tudo isso é que, no fundo, parece que todos os culpados por Sharknado parecem levar a sério o filme e sua proposta, o que torna tudo muito mais surreal. A introdução, onde um avião é atingido pela tempestade de tubarões, é filmada não como “Apertem os Cintos: O Piloto Sumiu”, mas como “Aeroporto 47” ou algo do gênero. Toda a trama segue a lógica dos filmes de ação/drama, onde o herói teoricamente passa por uma provação. A provação nesse caso, aparentemente, é reencontrar uma antiga namorada do colégio e se manter fiel. Talvez não seja um grande desafio, já que ela consegue em apenas um gesto com a cabeça, depois de beijar novamente seu ex na boca, fazer com que o espectador fique perdido. É pra dar risada? É pra entender que ela ainda gosta dele? É pra imaginar que ele provavelmente não escovou os dentes desde que começou aquela correria? Ao menos ela é misteriosa, mas não de um jeito bom.

Outro artifício desses filmes-catástrofe é o desafio de eliminar a ameaça que aterroriza multidões, geralmente com uma ideia inusitada. Bom, Sharknado 2 segue a tradição de remakes feitos para apenas ganhar mais dinheiro (para fazer o 3) e repete a mesma ideia genial do anterior, só que maior (começo a entender a lógica por trás da “saga”). Já as multidões que são abaladas pela torrente de peixes com dentes se resumem em uns vinte figurantes correndo pra todos os lados, seja no estádio (há uma cena no estádio com 20 pessoas; o resto deve ser arquivo) ou em uma das principais ruas de Nova Iorque. Quando o herói entra em uma lanchonete onde conhece o dono, ele diz para ficar lá dentro, que é mais seguro. Quando cai um tubarão do teto bem na sua frente, ele muda de ideia e diz: “pegue o que quiser”. Pegar o quê de uma lanchonete para brigar com tubarões? Pizza de anchova?

E o que dizer do discurso de ânimo para essas 20 pessoas, onde o herói diz que “nós, nova-iorquinos, somos duros na queda”, o que faz com que uma moça no fundo da pequena plateia olhe em admiração, e não contente com isso, exclame para todos ouvirem: “ele é ótimo”. Alguém está muito enganado nesse filme, dentro ou fora da tela.

Porém, o que torna Sharknado 2: A Segunda Onda um filme digno de figurar entre os pouquíssimos filmes com nota mínima aqui no Cine Tênis Verde é a bagunça que o diretor Anthony C. Ferrante consegue fazer com o material. Ele praticamente não consegue aplicar lógica visual alguma de onde os personagens estão e para onde vão. Quando uma rua inunda e eles sobem em um Táxi, eles improvisam uma corda para poder sair de lá e ir para outro lugar, como um cipó. Para onde eles vão? Estou me perguntando até agora, pois só vemos os personagens do peito para cima, e em momento algum faz sentido essa lógica, já que teoricamente o lugar para onde conseguiram escapar também está inundado. Sem contar os cortes extremamente rápidos que criam apenas a sensação de epilepsia, mas que parecem ter sempre o real motivo de esconder as aberrações que são as criaturas virtuais criadas em computador; a sensação é de apenas ver pixels estáticos se mexendo. Em um dos únicos closes dessas criaturas, vemos que até a textura usada no tubarão é de um material visivelmente plástico, e não importa o quanto queiramos acreditar, esses tubarões não são o que imaginamos.

Também, como poderiam? Eles nadam aos montes (tubarões são seres solitários nos mares), voando em uma tempestade que não derruba nenhum prédio da megalópole. Eles são animais mutantes que lembram tubarões, mas devem ser outra coisa. Não duvido que no próximo filme seja revelado que no fundo eles são extraterrestres que desceram dos céus através de uma nave que usa tornados como motor. Ou melhor: os alienígenas usam tubarões como combustível para suas naves.

Isso pelo menos seria absurdo e engraçado, e saberíamos disso. Do jeito que está, tudo é tão absurdo que não há como deduzir nada. É daquelas piadas que nossos amigos impopulares nos contam e precisamos acrescentar ao final: “é pra dar risada?”

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-08-20. Sharknado 2: A Segunda Onda. Sharknado 2: The Second One (USA, 2014). Dirigido por Anthony C. Ferrante. Escrito por Thunder Levin. Com Ian Ziering, Tara Reid, Vivica A. Fox, Mark McGrath, Kari Wuhrer, Courtney Baxter, Dante Palminteri, Judd Hirsch, Stephanie Abrams. imdb