Sherlock - A Noiva Abominável

Apr 7, 2016

Imagens

Como li em algum lugar, ser fã da série Sherlock é aguardar ansiosamente por um ano três episódios que terminam em um fim-de-semana. Depois disso, mais um ano (ou dois) de espera interminável.

Mas que episódios!

Elementar, meu caro spoiler.

A quarta temporada da série possui apenas um episódio (por enquanto), do tamanho de um filme – não uma exclusividade, isso já foi feito – e que mantêm um clima morno metade do tempo, diminuindo o ritmo e retratando uma outra época: a época original de Sherlock, a história original de seus livros (que, claro, continuam aqui sendo escritos por Watson).

Utilizando os mesmos atores (e personagens) em disposições ligeiramente diferentes (o irmão mais velho de Sherlock é gigantesco de gordo, Molly Hooper se disfarça de homem para trabalhar no necrotério), e se divertindo imensamente a respeito disso (Sherlock e seu irmão apostam em quanto tempo Mycroft irá morrer por comer feito um porco, e, em vez de não perceber o amor platônico de Hooper por Holmes, este não percebe que ela é uma mulher de bigode), o grande trunfo do episódio é dar uma oxigenada na série e reviver momentos semelhantes de maneira diferente do que estamos acostumados, mas ainda assim mantendo os artifícios que tornaram “Sherlock”, além de um trabalho monumental de roteiro, um polimento requintado em direção de arte, fotografia e direção. Note as transições elegantes entre um labirinto de plantas e os dedos pensativos de Holmes, ou um testemunho na sala de estar do detetive “se jogando” frente à cena do crime e verá o poder visual de uma série pautada em diálogos.

Sendo assim, se é divertido acompanhar os letreiros que pulam na tela quando um personagem recebe um bilhete, ou os recortes de jornais flutuando em frente a um Sherlock Holmes concentrado e dopado, isso se torna ainda mais quando descobrimos a verdade por trás dessa história, fazendo com que o roteiro de Mark Gatiss e Steven Moffat figure fortemente entre os deliciosamente mais complexos e inusitados da série. Depois dessa revelação, nada mais parece o mesmo, e o espectador menos atento irá perceber as referências colocadas de maneira muito mais orgânica que trabalhos como “A Origem” (que é excelente, mas burocraticamente técnico).

Nos jogando nos exatos quatro minutos em que Sherlock foi expatriado, logo no final do último episódio da temporada anterior, Sherlock S04E01 é um trabalho tão ambicioso que mais uma vez sou obrigado a compará-lo com o melhor que o Cinema convencional tem a oferecer. Mais uma vez um trabalho que merece não só estrear na Netflix, mas ocupar algumas salas de cinema pelo mundo.

Wanderley Caloni, 2016-04-07. Sherlock - A Noiva Abominável. Sherlock (UK, 2010). Dirigido por Paul McGuigan. Escrito por Mark Gatiss, Steven Moffat, Arthur Conan Doyle, Steve Thompson. Com Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Rupert Graves, Una Stubbs, Louise Brealey, Mark Gatiss, Andrew Scott, Jonathan Aris. IMDB.