Shirkers: O Filme Roubado

Nov 9, 2018

Uma garota queria muito fazer um filme. Ela acaba o tornando realidade, mas ele é roubado pelo próprio diretor. Décadas depois ela nunca mais fez nada relacionado a cinema, e chega a hora dela rever esse frustrante episódio de sua vida da única forma que é possível: fazendo outro filme.

E esse filme tem o mesmo nome do filme roubado, pois ele não existe. Os rolos que ela e suas amigas conseguiram produzir ficaram sob a posse do diretor, George. George era uma figura problemática no cenário cinematográfico da pequena e irrelevante Singapura, antes de se tornar o país mais rico do mundo.

Mas mesmo em cima de um filme inexistente ela entrevista amigos/colegas críticos de cinema que dizem que esse filme ia ser muito bom, apesar dele nunca ter passado da fase das filmagens. Deixe-me explicar como funciona a produção de um filme:

Primeiro há a pré-produção, onde argumentação, roteiro, story boards (desenhos das cenas com descrição), locação de lugares (ou descoberta), montagem do elenco, equipe e recursos financeiros são obtidos para começar a produção. Na produção há as filmagens propriamente dito. Na pós-produção é onde se faz a edição (escolha das filmagens, corte rítmico) e a montagem (escolha da ordem das tomadas escolhidas), além de inclusão dos artefatos extras: fotografia (ajustes), música e trilha sonora. Pronto, você tem um filme que pode chamar de seu.

Shirkers chegou apenas na fase de produção.

Isso gera um problema para sua idealizadora, Sandi Tan. Ela era uma sonhadora e queria fazer filmes. Seu primeiro filme nunca se torna realidade, o que a deixa frustrada e provavelmente muda completamente sua vida. Décadas depois ela realiza um documentário com as pessoas que fizeram parte desse triste episódio e realiza colagens dinâmicas sobre como tudo aconteceu, usando material da época.

Sandi Tan é uma egocêntrica, e seu filme reflete isso. Suas amigas falam em sua cara que ela era uma idiota. Talvez ainda seja. Porém, ninguém no filme tem mais potencial para ser chamado de idiota do que Georges Cardona, o diretor do filme que nunca existiu.

Georges é a pessoa problemática que começa todo esse drama. Ele deveria até ser o tema do filme se Sandi não fosse tão egocêntrica a ponto de tornar o assunto o tema de sua vida. Georges tem sérios problemas em sua vida. De origem desconhecida, mas provavelmente latina, ele inspira jovens cineastas e logo depois ele frustra seus planos. Os rolos do Shirkers original ficaram com ele após as filmagens.

E esse Shirkers se torna um trabalho de reconstrução dos fatos no mínimo interessante. Seu formato segue a lógica de artistas plásticos. Isso porque Sandi Tan e suas amigas eram pessoas vibrantes na época. Tan diz que não consegue parar de ter ideias. E “Shirkers: O Filme Roubado” é sobre como você pode roubar essas ideias e destruir a potencial carreira criativa de um artista. É triste, mas é filmado em um clima de resolução. Espero ver novas obras de Sandi Tan no futuro.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-11-09. Shirkers. EUA, 2018. Escrito e dirigido por Sandi Tan. Com Sandi Tan, Sophia Siddique Harvey, Georges Cardona. Documentário, história, cinema, singapura.