Sieranevada

Nov 30, 2016

Imagens

O que faz um filme ser bom? Se ele conta um arco bem-sucedido, onde o herói da história consegue atingir seu objetivo, e no processo entrega emoções para o espectador, é óbvio que este é um filme muito bom. Agora, o que dizer de um filme que te entrega em vez disso a realidade de uma reunião de família? E que dessa reunião não há muitas coisas boas a serem tiradas? Talvez o tamanho do arco do herói não importe muito, desde que este arco esteja inserido em uma história que o espectador entenda como válida. E em Sieranevada, entender isso é parte da diversão.

No entanto, estou usando a palavra “diversão” como cinéfilo que eu sou. Tudo se passa basicamente na casa velha e acumulada de coisas da mama, onde se encontram pais, filhos, netos e irmãos para um almoço que irá simular um ritual do finado patriarca da casa, pai do protagonista. O protagonista é pai de família ele mesmo, família essa que vemos bem no começo do filme, na primeira tomada, com uma câmera que observa ainda de longe, antes dos créditos iniciais. Eles estão na correria em uma rua. O carro deles trava o trânsito. Eles decidem na hora se a filha deles irá junto ou vai ficar.

Logo depois dos créditos, no entanto, já estamos ouvindo por trás dos personagens, dentro do carro, uma discussão entre marido e mulher. Ela briga com ele por ter comprado o vestido de princesa errado para a filha. Ele, nosso protagonista acidental, é uma pessoa calma, bem-humorada, e que frequentemente usa sarcasmo para se defender do drama comum familiar em sua volta. Não dá para acusar o filme de cínico, pois ele é muito aberto sobre o que está falando (traição), mesmo que leve uma hora e meia para chegar nesse ponto. Nem dá para acusar o protagonista de ser cínico ou sarcástico, já que a interpretação de Mimi Branescu e o uso da câmera para torná-lo nossa terceira pessoa, embora não no sentido físico da coisa, o torna o ser mais simpático do recinto.

E se já falei da câmera duas vezes, é porque ela é em boa parte um personagem nessa história. Ela é nós, em certo sentido. Ela caminha pela casa livremente, geralmente girando seus olhos para lá e para cá, e quase não corta as cenas. A direção de Cristi Puiu investe em um tom naturalista ao máximo, usando música do radinho da cozinha e preferindo as mudanças bruscas de luz do que uma estética mais rebuscada. Ele usa um elenco afiadíssimo, e tão competente que você duvida que sejam atores de fato. Assim como em certos momentos duvidamos que a câmera seja uma câmera. Parece nosso próprio olho. Vivenciando a realidade nada incomum de uma família, com seus dramas e relações. Todos querem que as coisas deem certo, mas é difícil colocar tantos humanos sob o mesmo teto e esperar que isso funcione. Curiosamente, nos olhos do protagonista, vemos que ele já desistiu há algum tempo.

O que não evita que ele não passe pelo seu arco. Sutil, delicado, e que representa sua própria geração. O uso do carro para esse fim, em uma cena que poderia muito bem finalizar o filme, é propício, pois coloca marido e mulher em uma privacidade que foi negada a todos os presentes naquela casa que virou um hospício (e que atrasou o almoço em três horas).

Muitos podem pensar que as discussões políticas têm alguma coisa a ver com o tema do filme, alguma crítica velada na história da Romênia. Talvez até tenha, mas o mais provável é que seja tanto uma teoria da conspiração quanto as que certo personagem gosta de pesquisar na internet. “Está tudo na internet”, conclui com os tios. E o passado está nos personagens mais antigos da família, como uma ativista da era comunista do país.

O roteiro de Puiu consegue caminhar em textos mais rebuscados quando está em uma discussão mais aprofundada – e para isso se aproveita de personagens específicos, como um professor de matemática – mas é bom mesmo em conseguir realizar um carrossel de interações, onde pequenas falas nos diálogos ajudam a formar um mosaico que descreve o que está acontecendo com aquela família em termos gerais. É assim que aprendemos que fulano traiu sicrana com a vizinha, que é bonita o suficiente para não acreditarmos na história, mas com o passar da discussão vemos que isso é de fato possível, o que nos revela mais traições na família, e que no fundo isso não é tão escandaloso quando se pensava.

Sieranevada é um trabalho ousado, que deixa nas mãos do espectador, habituado com a sua própria família, a detectar o subtexto de cada discussão, e com isso criar ele mesmo a impressão que teve dos personagens, e tirar suas próprias conclusões sobre o que se trata tudo aquilo. Material há de sobra, já que as quase três horas do filme de Cristi Puiu conseguem dar um gostinho de Cinema como falta nas obras mais descerebradas, no sentido de que o que vemos e ouvimos é tão interessante que não precisamos de um narrador nos explicando. Nossa própria curiosidade nos explica. Isso é tão eficiente que este filme longo ficou curto no seu final. Não seria nada mal mais umas três horas do lado dessa família.

Wanderley Caloni, 2016-11-30. Sieranevada. Sieranevada (Romania, 2016). Dirigido por Cristi Puiu. Escrito por Cristi Puiu. Com Mimi Branescu (Lary), Mirela Apostu (Doamna insarcinata), Eugenia Bosânceanu (Vecina in varsta), Ilona Brezoianu (Cami), Ana Ciontea (Aunt Ofelia), Ioana Craciunescu (Mrs. Popescu), Valer Dellakeza (Preotul), Aristita Diamandi (Vecina), Dana Dogaru (Nusa). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).