Silêncio

Quase 30 anos depois (A Última Tentação de Cristo), Martin Scorsese volta a filmar um tema religioso. Dessa vez vamos para o inusitado Japão feudal, no século 17, das grandes navegações. Padres portugueses avançam insistentemente para tentar converter o povo budista, mas são barrados por uma inquisição cruel e sanguinária, que tortura e mata os novos-cristãos da terra do sol nascente. Um padre (Andrew Garfield) sofre a provação do silêncio absoluto de um deus frente a tanto sofrimento, além de tentar descobrir se seu mentor, um ótimo como sempre Liam Neeson, traiu a igreja e virou “um deles”. É um roteiro bem amarrado, que se perde em detalhes apenas no terceiro ato, mas que mesmo em um ritmo moroso entrega uma experiência estética vibrante e intensa, onde a dor e o sofrimento lembram trabalhos como Paixão de Cristo (vá preparado), mas a grande questão é muito mais interna que externa. Note a falta de trilha sonora, o silêncio em vários momentos e apenas o som da natureza. Fogo, água, ar e terra se misturam em uma das partes menos nobres da iconografia cristão. Um drama belo, e mesmo que incoerente ou incompleto em seu final, levemente memorável.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-02-22. Silêncio. Silence (USA, 2016). Dirigido por Martin Scorsese. Escrito por Jay Cocks, Martin Scorsese, Shûsaku Endô. Com Andrew Garfield (Rodrigues), Adam Driver (Garupe), Liam Neeson (Ferreira), Tadanobu Asano (Interpreter), Ciarán Hinds (Father Valignano), Issei Ogata (Old Samurai / Inoue), Shin'ya Tsukamoto (Mokichi), Yoshi Oida (Ichizo), Yôsuke Kubozuka (Kichijiro). imdb