Sin City: A Cidade do Pecado

Oct 9, 2016

Imagens

Muitos não gostaram do resultado final em Sin City, um longa que emula com perfeição o visual de uma graphic novel. Isso, de certa forma, explica o marasmo do Cinema comercial, onde a mesmice é condecorada, e as criações originais, boas ou ruins, são vistas simplesmente como chatas. Não se engane: quando alguém diz que não gostou de algo diferente, na esmagadora maioria dos casos não é porque ela possui uma visão crítica com argumentos de por que aquilo, em sua visão, é ruim. É simplesmente porque, sabe como é, “eu só queria me divertir um pouco e deixar o cérebro em casa. E agora vocês querem que eu pense?”

Isso em um filme que possui uma história simples, quase linear, que apenas como floreio narrativo fecha seus arcos como camadas de uma cebola, algo que o torna antes de confuso, belíssimo, pois suas histórias se cruzam de maneira temática. As mulheres fortes – o núcleo da história – são uma atualização do noir clássico – o começo e fim – misturado com policial, onde o detetive que está para se aposentar vai atender o seu último chamado e salvar a garota em perigo, ou o brutamontes que se encontra em uma sinuca de três bicos por ser perseguido por matar a única mulher que lhe deu prazer na vida.

E, claro, há o visual: A fotografia que destaca seus personagens em cenários com fundo desenhado. A descrição que acabei de fazer não faz justiça ao resultado final, que utiliza todos os truques possíveis para criar uma decupagem que vira uma aula de Cinema, trazendo realismo apesar de uma estética rebuscada. A profundidade reduzida de campo, o fundo preto, o jogo de proporções, a física um pouco exagerada, a ultra-violência, os tons eventuais de cores no meio de um preto & branco absolutamente arrebatador. Tudo isso pode ser usado como tema para uma peça de teatro conduzida com energia, diálogos e cinismo como combustíveis de uma história de crime animal e corrupção de poder, seja o clero ou o Estado.

Frank Miller, de acordo com Robert Rodriguez, já era um diretor que usava seus desenhos em uma narrativa visual. Rodriguez, por sua vez, é outro ótimo diretor visual (e péssimo em roteiro). A união dos dois trouxe à vida os quadrinhos que Miller compôs, de acordo com ele, como “um ato de auto-indulgência”. São personagens que ele conhece de ponta a ponta, o passado, os gostos, as mágoas. Tudo isso fica de fora do filme, e o que vemos é uma sequência ininterrupta de caracteres bizarros, mas fortes o suficiente para nascerem e sobreviverem em uma cidade cercada de impunidade.

Wanderley Caloni, 2016-10-09. Sin City: A Cidade do Pecado. Sin City (USA, 2005). Dirigido por Frank Miller, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Escrito por Frank Miller. Com Jessica Alba (Nancy Callahan), Devon Aoki (Miho), Alexis Bledel (Becky), Powers Boothe (Senator Roark), Cara D. Briggs (Hearing Panel Person), Jude Ciccolella (Liebowitz), Jeffrey J. Dashnaw (Motorcycle Cop), Rosario Dawson (Gail), Jesse De Luna (Corporal Rivera). IMDB.