Sing: Quem Canta Seus Males Espanta
Wanderley Caloni, 2016-12-29

Este é o ano em que temos musicais animados que abraçam sua cafonice da maneira mais fofa possível (“Trolls”) e filmes como “Sing”, que entrega bichinhos fofinhos cantando como pop stars em uma pequena fábula sobre um produtor musical com um sonho que… bem, isso não importa. O que importa neste filme é única e simplesmente seus números musicais. A história que os cerca serve única e simplesmente para conseguir colocar os bichinhos fofinhos cantando mais uma vez. E mais uma. E mais uma. Até você cansar.

Produzido pelos mesmos de Meu Malvado Favorito, Minions e etc, “Sing” segue o mesmo conceito de apresentar personagens com potencial de atrair a simpatia do seus espectadores sem a necessidade de qualquer lógica em sua história. Sua câmera se movimenta rapidamente para ir de casa em casa, de beco em beco, apresentando cada um deles cantando. É um ratinho encrenqueiro com seu saxofone, o gorila que não se encaixa na gangue do pai, a dona de casa com 25 filhos e um marido ingrato. E quando a dona de casa resolve o seu problema de conseguir tempo para ir aos ensaios, fica claro que as saídas fáceis para qualquer problema do filme será a regra, e o único empecilho que existe para o sucesso é a própria pessoa (soa como uma lição de moral, não?).

A animação, a despeito de ser bem feita em seus detalhes, soa antiga e com falta de imaginação. Afinal de contas, todos nós já vimos coalas, girafas, gorilas, porcos e porcos-espinhos em animações anteriores, além de piadas sobre porcos-espinhos. E tirando detalhes como a forma peculiar dos coalas de lavar carros, o fato de todos serem animais diferentes não parece fazer a mínima diferença para a história. O conceito de zoológico já estava montado antes mesmo dos seus personagens.

O filme se beneficia de grandes hits de cerca de 10 anos atrás, o que para a música pop é outro século. O mais curioso é que nem precisava ser assim, já que as letra sem si geralmente não significam grande coisa (como em qualquer música pop genérica) para a história. Pelo menos a decisão da produção nacional em não traduzir a letra dos originais e usar cantores profissionais pop para a dublagem – como Sandy, Wanessa Camargo e Fiuk – acerta muito mais do que em Trolls, onde as produções locais brasileira e uruguaia fizeram a tradução (com resultados mistos).

De qualquer forma, nem a música nem as letras nem os animais nem as boas vozes estão aí em prol da narrativa, mas como elementos fofinhos e emocionantes em um show disfarçado de filme. Os personagens cantam porque é isso que se espera deles no filme. Todos (mesmo os eliminados em um show de talentos) possuem ótimos números, e ninguém parece desafinar, provando que enquanto até a Disney possui vozes dissonantes a respeito da praga do politicamente correto (Zootopia), os estúdios Malvado Favorito foram totalmente impregnados pela peste, se recusando a criar qualquer nível de comparação entre o que é bom e mau. Praticamente não existem vilões ou antagonistas que se prezem, e mesmo que existissem eles não são punidos, já que ninguém, no final das contas, se machucou.

Sing é um filme para quem acredita que todas as pessoas conseguem cantar maravilhosamente bem simplesmente porque gostam do que fazem, e que é possível comprar um teatro luxuoso lavando carros a vida toda. Se você é desses sonhadores utópicos, esta pode ser uma experiência nem boa nem ruim, já que estes conceitos não existem aqui. É apenas mais do mesmo para comer pipoca e não pensar muito sobre isso.

★★★☆☆ Sing. USA. 2016. Direção: Garth Jennings, Christophe Lourdelet. Roteiro: Garth Jennings. Elenco: Matthew McConaughey (Buster Moon), Reese Witherspoon (Rosita), Seth MacFarlane (Mike), Scarlett Johansson (Ash), John C. Reilly (Eddie), Taron Egerton (Johnny), Tori Kelly (Meena), Jennifer Saunders (Nana), Jennifer Hudson (Young Nana). Edição: Gregory Perler. Trilha Sonora: Joby Talbot. Duração: 108. Aspecto: 1.85 : 1. Animation. #cinema