Sing: Quem Canta Seus Males Espanta

Este é o ano em que temos musicais animados que abraçam sua cafonice da maneira mais fofa possível (“Trolls”) e filmes como “Sing”, que entrega bichinhos fofinhos cantando como pop stars em uma pequena fábula sobre um produtor musical com um sonho que… bem, isso não importa. O que importa neste filme é única e simplesmente seus números musicais. A história que os cerca serve única e simplesmente para conseguir colocar os bichinhos fofinhos cantando mais uma vez. E mais uma. E mais uma. Até você cansar.

Produzido pelos mesmos de Meu Malvado Favorito, Minions e etc, “Sing” segue o mesmo conceito de apresentar personagens com potencial de atrair a simpatia do seus espectadores sem a necessidade de qualquer lógica em sua história. Sua câmera se movimenta rapidamente para ir de casa em casa, de beco em beco, apresentando cada um deles cantando. É um ratinho encrenqueiro com seu saxofone, o gorila que não se encaixa na gangue do pai, a dona de casa com 25 filhos e um marido ingrato. E quando a dona de casa resolve o seu problema de conseguir tempo para ir aos ensaios, fica claro que as saídas fáceis para qualquer problema do filme será a regra, e o único empecilho que existe para o sucesso é a própria pessoa (soa como uma lição de moral, não?).

A animação, a despeito de ser bem feita em seus detalhes, soa antiga e com falta de imaginação. Afinal de contas, todos nós já vimos coalas, girafas, gorilas, porcos e porcos-espinhos em animações anteriores, além de piadas sobre porcos-espinhos. E tirando detalhes como a forma peculiar dos coalas de lavar carros, o fato de todos serem animais diferentes não parece fazer a mínima diferença para a história. O conceito de zoológico já estava montado antes mesmo dos seus personagens.

O filme se beneficia de grandes hits de cerca de 10 anos atrás, o que para a música pop é outro século. O mais curioso é que nem precisava ser assim, já que as letra sem si geralmente não significam grande coisa (como em qualquer música pop genérica) para a história. Pelo menos a decisão da produção nacional em não traduzir a letra dos originais e usar cantores profissionais pop para a dublagem – como Sandy, Wanessa Camargo e Fiuk – acerta muito mais do que em Trolls, onde as produções locais brasileira e uruguaia fizeram a tradução (com resultados mistos).

De qualquer forma, nem a música nem as letras nem os animais nem as boas vozes estão aí em prol da narrativa, mas como elementos fofinhos e emocionantes em um show disfarçado de filme. Os personagens cantam porque é isso que se espera deles no filme. Todos (mesmo os eliminados em um show de talentos) possuem ótimos números, e ninguém parece desafinar, provando que enquanto até a Disney possui vozes dissonantes a respeito da praga do politicamente correto (Zootopia), os estúdios Malvado Favorito foram totalmente impregnados pela peste, se recusando a criar qualquer nível de comparação entre o que é bom e mau. Praticamente não existem vilões ou antagonistas que se prezem, e mesmo que existissem eles não são punidos, já que ninguém, no final das contas, se machucou.

Sing é um filme para quem acredita que todas as pessoas conseguem cantar maravilhosamente bem simplesmente porque gostam do que fazem, e que é possível comprar um teatro luxuoso lavando carros a vida toda. Se você é desses sonhadores utópicos, esta pode ser uma experiência nem boa nem ruim, já que estes conceitos não existem aqui. É apenas mais do mesmo para comer pipoca e não pensar muito sobre isso.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-12-29 imdb