Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme

Jan 17, 2016

Imagens

O menino tenta empinar sua pipa; sempre sem sucesso; e ele nunca desiste. Passa o tempo. Agora uma pipa empina um homem; que aprendeu que seus maiores valores encontram-se dentro de si mesmo; e ninguém é capaz de tirar isso dele. Entre esses dois estados da natureza de uma pessoa há um filme extraordinariamente depressivo que, ainda assim, pode e deve ser considerado infantil. Ele evoca a criança deprimida e tímida dentro de cada um de nós; sejam ainda crianças ou já crescidas. Incertos a respeito dos outros, de todos os outros que com nós habitam essa realidade, esse mundo sempre será essa eterna sala de aula. Gostaríamos de sermos aceitos para que conseguíssemos ter um pouco de autoestima. Não é pedir muito: “Se pelo menos, uma vez apenas, eu conseguisse empinar essa pipa…”

Esse não é o primeiro longa-metragem com os personagens de Peanuts, ou Snoopy, a criação do cartunista Charles M. Schulz que depois virou desenho animado. No entanto, esse filme tem um toque especial que o difere dos outros. Ele é roteirizado por Craig Schulz, filho de Charles, e Bryan Schulz, seu neto. Ambos capturaram a essência dos personagens e situações criados por seu pai/avô e emolduraram em torno de uma homenagem que a atualiza, engrandece e expande, conseguindo no processo, espero, se tornar referência para essa geração.

Além da história estar em família, outra mudança significativa é que houve uma pequena atualização na versão 2D dos desenhos. A percepção é mista: o “mise-en-scene” (como dispor os personagens e objetos em cena em um filme) continua 2D, mas a textura e a presença de pequenos detalhes são 3D – como o penteado de Charlie Brown, o protagonista do filme, que muda de lado dependendo do ângulo de seu rosto que estamos vendo. Além do mais, sequências de ação, como os voos de Snoopy, o cão imaginativo de Charlie, possuem ambas as perspectivas e parecem se beneficiar de ambos. Se por um lado a visão bidimensional cria lindos cartões postais do horizonte em que Snoopy sobrevoa, a noção de profundidade melhora nossa visão geográfica.

Porém, as técnicas usadas no filme são interessante, mas estão longe de ser as melhor coisa no filme. Suas maiores virtudes residem, felizmente, em seus personagens, que estão fiéis ao conteúdo original, seja em suas piadas ou em seus dramas. Toda a história parece girar em torno da eterna história central: a luta de um menino tímido e depressivo em resgatar sua autoestima demonstrando que ele tem talentos que comprovam seu valor. Aliado a isso, temos seu alter-ego, Snoopy (tão bem demonstrado em uma transição onde os rosto de ambos se fundem), está cheio de vida e imaginação. A imaginação de Snoopy, no fundo, é o que une todos aqueles personagens, ou pelo menos dá o ar da vida a cada um deles. A interação dos outros personagens com Charlie Brown é o que demonstra seu conflito interno de maneira mais cômica, mas para o drama, o verdadeiro dilema filosófico, escutamos seu eu interior bolar os seus planos mirabolantes que tentam a todo custo elevar seu ego. Isso soa familiar para um adulto?

O roteiro escrito a seis mãos consegue unir os pequenos dramas dos outros personagens em um mosaico que descreve com perfeição uma sala de aula que ambiciona com todas as forças se tornar de adultos. O que divide crianças e adultos no filme é que conseguimos entender as crianças. Os adultos, esse som inaudível, nunca são relevantes. O sonho das crianças é se comportarem e se tornarem adultos, mas enquanto forem crianças sonhadoras o mundo estará a salvo. (É quando a realidade cínica do dia-a-dia bate à porta que tudo se esvai.)

A Garotinha Ruiva (é assim que ela é chamada), responsável pela apaixonite de Charlie, e sempre nos cartoons praticamente invisível (nunca a vemos diretamente), aqui recebe o tratamento adequado, e de fato não a vemos por completo quase todo o filme ou sempre de relance, de lado e, o mais comum, apenas seus cabelos, quase que homenageando sua representação original. Porém, aos poucos algo muda nesses personagens, tanto em Charlie quanto nela, e ambos começam a se mover nessa jornada de auto-descoberta que parece nunca mudar. Com isso se tornam mais reais. Charlie arrisca mais, e recebe resultados, queira ou não. Mas isso não interessa. É sua vontade de conseguir e sua persistência inabalável dentro de sua estrutura de garoto desastrado que sintetiza sua realidade. O grande trunfo do roteiro da família Schulz é entender, como nós sempre entendemos, em nosso subconsciente, que o objetivo de Charlie é o da auto-descoberta.

E mesmo que o final seja controverso em flertar com o paradoxo eterno na obra de Schulz, ele já é esperado ao longo da aventura porque no fundo as coisas já mudaram. Não se preocupe, não vou estragar a surpresa, e ela nunca vem como a gente espera. Para Charlie, o caminho percorrido foram dignos de um romance épico, tal como Guerra e Paz. Para a criança que assiste, tudo não passou de diversão embalada em sentimentos que muitos compartilham. Para o adulto com coração de criança, ele entendeu muito bem quando o menino empina a pipa e quanto o homem se deixa levar pela pipa que o leva: tudo que poderia ser feito foi feito. Esse é o limite do homem, e o que define seu caráter é o que já foi feito.

Wanderley Caloni, 2016-01-17. Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme. The Peanuts Movie (USA, 2015). Dirigido por Steve Martino. Escrito por Bryan Schulz, Craig Schulz, Cornelius Uliano, Charles M. Schulz. Com Trombone Shorty, Rebecca Bloom, Anastasia Bredikhina, Francesca Capaldi, Kristin Chenoweth, Alexander Garfin, Noah Johnston, Bill Melendez, Hadley Belle Miller. IMDB.