Snowden

O Estado vive aos poucos sua esperada queda, dessa vez na figura dos EUA, a única nação que tinha alguma esperança de ser um país livre. Essa liberdade no decorrer de séculos foi aos poucos trocada pela falsa sensação de segurança, traduzida atualmente nas mãos de seus líderes como perseguição ao terrorismo e socialismo para as massas, o que, na eterna ineficiência estatal, se traduz realmente em perseguição das massas e socialização com o terrorismo. Quanto tempo mais de internet o patriotismo se aguenta de pé?

Primeiro foi a Wikileaks, uma imensidão de dados revelando os projetos espúrios de organizações de segurança e proteção norte-americanas e mundiais. Agora, na figura de um jovem idealista, patriota de carteirinha, a ponto de se alistar para o exército, mas por sofrer uma injúria nas pernas ter que se dedicar a projetos tecnológicos da NSA para servir seu país. “Edwards Snowdens” é o que mais haverá daqui em diante. A internet pertence aos hackers, e os mais habilidosos hackers são os mais jovens. Jovens são idealistas por natureza, no sentido de que desejam fazer a coisa certa. Não estão corrompidos ou cooptados pelo establishment estatal.

O que acaba sendo um tiro no pé, principalmente quando Snowden conhece o veterano Hank Forrester (Nicolas Cage se segurando, quem diria), igualmente habilidoso com computadores e que criou uma solução barata que consegue monitorar a internet de maneira automática e com eficiência. Seu projeto foi engavetado em troca de uma solução muito mais cara e que ainda por cima exige intervenção humana para analisar as toneladas de dados que trafegam pelo mundo todos os dias. Protestando formalmente na justiça, Hank acabou sendo engavetado como professor. Esse é apenas o início das desconfianças de Snowden, que saiu de um início de carreira voluntária no exército para um analista de informações com praticamente todos os acessos aos dados (exceto as ferramentas que cruzam estes dados).

Snowden é um patriota que acredita ainda no ideal americano. Inspirado, entre outros, por Ayn Rand, gosta da frase de sua obra-prima, A Revolta de Atlas: “Um homem pode parar o motor do mundo”. Curiosamente os idealizadores do filme parecem sugerir que este homem poderia ser Snowden e o motor do mundo seria o Estado, ignorando que ele já é um abominável freio. De qualquer forma, sua visão acerca dos EUA serem o melhor país do mundo nunca é colocado em xeque pelo polígrafo que realiza testes para cargos de confiança como esses, mas o que está em xeque é a forma como cada um enxerga a maneira de ajudar seu país. E Snowden paulatinamente vai mudando essa visão.

Para que essa transição funcione, o roteirista Kieran Fitzgerald, baseado no livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding, coloca o espectador no início e fim dessa transição. O filme começa em um encontro secreto entre Snowden e jornalistas de alto escalão, mas logo volta para a época do jovem no exército, e daí vai avançando até chegarmos nos dias atuais. A sutileza com que a mudança na visão da realidade do rapaz é explorada é fascinante, e muito mais quando enxergamos o subtexto amarrado nos diálogos, por exemplo, entre Edward e seu chefe/amigo Corbin O’Brian (um irreconhecível Rhys Ifans). Corbin é mais pragmático, e possui uma visão cinza sobre onde o governo pode atuar para garantir a segurança dos seus cidadãos. Snowden aos poucos se assusta com o nível de controle que as ferramentas da NSA e de outros órgãos e corporações conseguem fornecer na ponta dos dedos dos agentes governamentais, sejam eles responsáveis de longa data ou jovens e habilidosos nerds (incluindo ele próprio). Aliás, uma questão fascinante é por que o controle de uma ferramenta que permite ver a webcam de qualquer pessoa com o computador ligado é entregue a um jovem inconsequente, mas não ao aparentemente íntegro Snowden.

E para que o documentário realizado via ficção não seja enfadonho, Oliver Stone traz todo seu conhecimento do show business para dramatizar fatos de maneira que o espectador médio consiga atravessar uma tensão basicamente ideológica e política como se estivesse no meio de uma teoria da conspiração. Para isso, ele usa de todos os artifícios ao seu alcance, como um cubo mágico, ataques de epilepsia, cenas que emulam o Grande Irmão de 1984, além de um reflexo nada sutil pela webcam de um casal fazendo sexo. Chega ao cúmulo de usar o clichê da cópia de dados no último instante. Nada consegue parar a “versão emocionante” de uma história séria para Oliver, que além de parecer se divertir imensamente com ela, se esquece das premissas e das ideias principais por trás da história, enxergando o Estado como um mecanismo que está colapsando e que precisa de um herói para consertá-lo, ignorando por completo – assim como em sua saga de Wall Street – que o problema não é um sistema mal-funcionando, mas o próprio sistema.

Por fim, a interpretação imensamente carismática e sutil de Joseph Gordon-Levitt consegue elevar a ficção ao nível de documentário facilmente, e quando no final do terceiro ato, ao realizar essa transição, o filme causa não estranheza, mas surpresa e admiração por estarmos olhando para o verdadeiro Snowden e não encontrarmos diferenças significativas na persona que havíamos acompanhado durante mais de duas horas de filme. Um feito desses não é digno de Oscar por ser sutil demais, mas merece créditos justamente por essa sutileza.

Se achando tremendamente relevante às vésperas da eleição presidencial americana, “Snowden” ignora a própria mensagem de falta de otimismo em um sistem que leva até pessoas bem-intencionadas como Barack Obama a dançar conforme a música. Não há esperança na vida real para os EUA se ela não vier de baixo. E de baixo, temos namoradas fotógrafas que não veem nada de errado em serem espionadas pela internet pelo governo, se for pelo bem da nação. Me arrisco a dizer que o povo em geral não tem muitos problemas com isso. O que meio que invalida toda a teoria da conspiração proposta, quando praticamente toda a população está satisfeita em ter sua vida escrutinada pelos competentes órgãos governamentais.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-11-02 imdb