Sobre Café e Cigarros

Wanderley Caloni, December 20, 2010

Esse é um filme extremamente deprimente, pelas características dos cenários, pela estática das cenas, pela conversinha dos personagens, pelo princípio que os personagens principais, de fato, são os nomes do título.

Tanto é que em cada início e fim do curta vemos eles, o café e o cigarros, vistos de cima, como os que realmente importam e estão sempre presentes (as pessoas geralmente estão chegando e/ou se despedindo).

O próprio fato do filme ter sido feito em P&B e o café e o cigarro serem, por natureza, dessa cor, realça sua realidade, em detrimento aos personagens.

Estranho Conhecido

Uma mesa estilo xadrez e um ambiente decadente. Mais para frente vamos ver que os próprios detalhes do cenário se repetem (como a mesa xadrez), além dos diálogos e os próprios personagens.

Nesse ambiente as paredes estão arrebentadas e o clima é de loucura. Ambos os personagens tremem, por muito café, cigarro, ou ambos.

Twins

Vemos café claro (com leite) e escuro. Uma teoria maluca sobre o irmão gêmeo de Elvis Presley contada pelo garçom. Aliás, os garçons do filme são extremamente impertinentes (inclusive Bill Murray), o que mais uma vez demonstra a falta de personalidade dos personagens e sua repetição constante.

Um mexe o café do outro. A visão por cima permanece nessas cenas.

Um copia o estilo do outro.

Somewhere in California

Vemos uma expressão forçada e ansiosa de quem espera, mais uma repetição de personagem. Aliás, os próprios curtas forçam que os atores sejam breves e marcantes em suas interpretações.

Um oferece café, outro cigarro. Suas opiniões sobre o cigarro mudam rapidamente, uma vez que um encontra o alicerce no outro.

Um jeitão esquisito do músico/médico, repetido no membro do Wu-Tang Clan.

Os cigarros, apesar do usual, possuem, sim, marca: Camel, Malboro, etc.

A “força de vontade” é enfatizada muitas vezes, enquanto eles se entregam ao vício.

Há muitas contradições e absurdos nos personagens. Não só os desse curta.

Those things will kill ya

Sombra na pessoa que reclama, luz na pessoa que se defende.

Uma relação pai/filho baseada no dinheiro para manter o segredo de fumante.

..

Revista de armas (relacionada ao resto?)

Garçom insistente e impertinente (mais uma vez).

Qual o significado geral da composição? Começamos a perceber uma certa ligação entre as histórias, ou entre o clima delas, ou algo maior.

O P&B, se não me engano, varia de esverdeado para o simples.

No problem

Não sabemos o objetivo das pessoas. Elas se encontram para não contar nada de mais (não há nada de errado com a minha vida, só queria ver você).

Talvez o “só queria ver você” fosse uma antropomorfização do café/cigarro, sendo que não há, de fato, um motivo para vê-los, mas os personagens os veem de qualquer jeito. Isso nos dá uma pista que talvez os personagens sejam todos assim.

Aos poucos percebemos que o nível das conversas é gritantemente raso, um small talk no pior dos gêneros. Tudo para que assistamos o café e o cigarro de camarote.

Na mesa, quase sempre há mais xícaras de café do que pessoas.

Talvez a mesa xadrez evoque o próprio cenário que presenciamos, P&B, das pessoas em volta.

Cousins

Relação entre prima rica (e famosa) e prima pobre.

Ótima interpretação do politicamente correto (e fútil, ainda small talk) e o incompreendido e revolta (prima pobre), sempre com comentários desagradáveis.

Jack shows his Tesla bob

Mais uma vez garçom impertinente.

Cousins ?

Molina interpretando ele mesmo e outro ator também interpretando ele mesmo.

No começo um dá as cartas, no final Molina ganha a atenção que queria (e a rejeita).

Um é visto como o astro da vez, tanto que uma fã, quando o descobre no recinto, apenas vê ele, e não Molina.

O absurdo da situação é incrementado quando o outro ator até se esquece do nome completo do Molina.

As expressões dos atores diz tudo sobre essa relação, bem mais que os diálogos, que continuam fraco, mas possuem em sua essência exatamente aquilo que estamos vendo.

Dessa vez o chá toma o lugar do café.

Delirium

Mais uma vez o músico/médico (e o garçom impertinente: Bill Murray!).

Mais uma vez são todos pessoas conhecidas no show business.

A mesma história de sonhar rápido contada no primeiro curta.

Bill Murray “se disfarçando” de garçom, é o que realmente fuma e bebe café compulsivamente.

Champagne

As expressões e o diálogo ingênuo de um e as expressões e o diálogo lógico do outro contracenam mais uma vez, como um fechamento que une a primeira história.

A interpretação dos velhinhos é soberba, pois apenas com seu tom de voz, sua maneira de se mexer podemos perceber claramente a tristeza da situação, mas a alegria por trás disso.

A luz é mais escura que em todos os outros, e talvez isso realmente se compare com o primeiro curta, onde tudo é muito claro (luz forte na cara dos atores).

Vemos diálogos e ideias cruzadas de novo (Nikola Tesla e sua ideia da Terra ressonante e o almoço saudável).

No final, temos a sensação de algo muito deprimente. Talvez o efeito do filme como um todo seja de fato o efeito que o café e os cigarros fazem em nossa vida. Eles vão e vêm, passam despercebidos, mas possuem importantes mensagens de vida e morte.

Imagens e créditos no IMDB.
Sobre Café e Cigarros ● Sobre Café e Cigarros. Coffee and Cigarettes (USA, 2003). Dirigido por Jim Jarmusch. Escrito por Jim Jarmusch. Com Roberto Benigni, Steven Wright, Joie Lee, Cinqué Lee, Steve Buscemi, Iggy Pop, Tom Waits, Joseph Rigano, Vinny Vella. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-12-20. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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