Solaris

Solaris exige do espectador uma imersão surreal e ao mesmo tempo filosófica. Tudo bem que isso já é esperado de toda boa obra de ficção-científica, que nos coloca em uma realidade alternativa mas que continua debatendo temas da época em que foi feita.

Só que aqui estamos falando de uma união entre sci-fi e filosofia Tarkosvkiana. Quero dizer, o diretor é intenso. E é russo. Sonhos aqui não são apenas descritos: são vividos.

E por falar em sonhos, nos colocamos na situação do psicólogo Kelvin (Donatas Banionis), cuja missão se passa na estação espacial em torno da atmosfera misteriosa do planeta Solaris, que possui um oceano que se comporta como uma espécie de cérebro, materializando criaturas que se parecem (e agem) como humanos. Como não poderia deixar de ser, essas aparições estão deixando a equipe de pesquisadores extremamente perturbada, o que não os ajuda em nada a desvendar o funcionamento do planeta.

O mais curioso de uma história envolvendo gabaritados doutores é que estes fazem parte do filme, e por isso não conseguem entender algo que para nós, espectadores, munidos do poder da metáfora e alegorias, conseguimos enxergar de maneira muito óbvia: o oceano que adquire diversos formatos faz o papel da psique humana. E a psique não se desvenda, se interpreta.

E é exatamente isso que Tarkovski nos sugere, aplicando rebuscados planos e se estendendo em torno de quadros que repetem um padrão (ou a falta de). Quando Kelvin passa a conviver com sua ex-amada Hari (Natalya Bondarchuk), a experiência é tão intensa que é como se nós mesmos a conhecêssemos de outras vidas.

De certa forma, isso não é completamente mentira. O oceano de Solaris pode representar, de certa forma, a psique da humanidade inteira. A visão junguiana favorece as elucubrações filosóficas que ocorrem. E se estas podem parecer simplesmente jogadas, é preciso lembrar que ela está saindo da boca de representantes máximos da espécie humana (e Sócrates está presente em ambos os ambientes, na Terra e no Espaço). Estes homens não conseguiram desvendar Solaris assim como o Homem não consegue a si mesmo.

Que triste fim para o Homem que, por não saber quando vai morrer, vive apressadamente. Se pelo menos tiver apreciado uma sessão de Solaris, talvez a viagem não tenha sido feita em vão.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-10-21. Solaris. Solyaris (Soviet Union, 1972). Dirigido por Andrei Tarkovsky. Escrito por Stanislaw Lem, Fridrikh Gorenshteyn, Andrei Tarkovsky. Com Natalya Bondarchuk, Donatas Banionis, Jüri Järvet, Vladislav Dvorzhetskiy, Nikolay Grinko, Anatoliy Solonitsyn, Olga Barnet, Vitalik Kerdimun, Olga Kizilova. imdb