Somos Tão Jovens

2013/05/14

Antes de tudo, a interpretação de Thiago Mendonça é primorosa do começo ao fim ao estabelecer o “Renato” do filme não apenas como a sombra de um ídolo, mas a própria persona se construindo através de suas referências culturais. O uso de sua voz é um dos pontos fortes: usando aos poucos entonações que vão aos poucos revelando o Renato Russo que os fãs conhecem, é uma surpresa agradável poder observar sua própria evolução como cantor, engrossando a voz aqui e ali, tentando encontrar o seu estilo. Isso nos aparece de forma completamente natural e discreta. A música e poesia das letras do vocalista parecem sair prontas do seu intelecto, e parte dessa experiência é devido ao interessante roteiro de Marcos Berstein (Central do Brasil) com a colaboração de Victor Atherino que vai construindo as situações e expressões de suas poesias no dia-a-dia casual.

O mesmo não pode ser dito da direção: Antonio Carlos da Fontoura (No Meio da Rua) insiste em burocratizar a história com cortes definidos demais entre ação e músicas, e evita polemizar demais em torno do temperamento explosivo do protagonista. Até sua sexualidade é meio deixada de lado e prejudica a construção do personagem, ainda mais sendo um tabu relevante demais na época para apenas ser citado nas entrelinhas. Mesmo assim, é admirável observar sua trajetória em direção à liderança das duas bandas que formou tamanha a naturalidade com que ela se desenvolve. Uma pena que a apresentação dos outros componentes das bandas soe tão artificial e forçadamente prolixo, chegando a usar nome e sobrenome dos que estavam à margem do cantor (“esse é o Marcelo Bonfá”).

Já a participação de sua amiga sempre presente Ana (Laila Zaid) funciona para contribuir ao entrarmos mais na mente do poeta e conhecer suas angústias (como a depressão, um tema recorrente em sua discografia), e mesmo que Mendonça já carregue isso em sua expressão pesada e um jeito de andar deslocado e caótico (com a ajuda da câmera que sempre treme e procura pontos de luz que dominam vários dos seus momentos sozinhos), é importante o contraponto entre seu sucesso nos palcos e sua solidão em seu quarto. Para pontuar ainda mais o drama em que vive o multifacetado artista, a trilha sonora organizada por Carlos Trilha (que já trabalhou nos dois solos de Renato) acerta em vários momentos ao aplicar acordes icônicos de grandes sucessos da banda como forma de comentar a atmosfera de Brasília como um reflexo de um país à espera de um amanhã melhor, e o reflexo das preocupações de um vocalista punk é a melhor maneira de centralizar esse sentimento.

Parte dessa atmosfera consegue ser atingida também através da fotografia e direção de arte, que trabalham juntas para estabelecer uma Brasília pré-democracia. Se a definição da época é estabelecida com competência em uma inteligente transição entre um carro de sorvetes de uma marca antiga e um camburão da polícia militar (a despeito do letreiro que denuncia o ano despropositadamente), o resto não consegue ser pontuado facilmente, mas sentido em cada cena, uma virtude invisível da construção cuidadosa dos cenários. A fotografia nos convida aqui e ali a entrar em um mundo de tons pastéis e granulados que evocam um tom saudosista, e é compreensível que isso apenas seja feito em certos momentos, dando lugar em sua maioria a uma qualidade de imagem considerável.

Com pequenas pontes entre o Renato do filme e o Renato pessoa, não deixa de ser irônico, tráfico e catártico ouvir Renato planejar sua vida dividida em períodos de 20 anos voltados para a música, cinema e literatura, pois sabemos que isso nunca irá se concretizar, o que gera um forte sentimento de desperdício de talento com a sua morte.

E essa é a única passagem que nos remete depois do início do sucesso do Legião no primeiro show no Rio, que termina sua aventura sem definir em nenhum momento qual seria o objetivo dessa história. Assim como tem sido em biografias no Cinema Nacional, vemos imagens reais de Renato Russo e Legião Urbana junto aos créditos, que não impressionam com exceção da comparação com Thiago Mendonça, apenas comprovando sua competência em se igualar ao ícone.

Uma pena que o filme seja tão metalinguístico a ponto de terminar em um Aborto Elétrico.

★★★☆☆ Somos Tão Jovens. Brazil, 2013. Direction: Antonio Carlos da Fontoura. Script: Victor Atherino. Marcos Bernstein. Cast: Thiago Mendonça. Laila Zaid. Bruno Torres. Daniel Passi. Sandra Corveloni. Marcos Breda. Bianca Comparato. Conrado Godoy. Nicolau Villa-Lobos. Edition: Dirceu Lustosa. Cinematography: Alexandre Ermel. Will Etchebehere. Gender: Biography. Category: movies

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