Sonar

Oct 31, 2016

Imagens

Este é o segundo filme que vejo na Mostra com um personagem que grava sons do ambiente (o outro é O Que Restou da Minha Vida). Sonar escolhe falar sobre uma imigrante mulher de um país africano que ainda trata mulheres como submissas. O interessante é que, considerando o que o filme faz dessa personagem, não temos pista nenhuma que nos faça evitar em pensar que, no fundo, ela também seria no Ocidente como apenas mais uma vadia.

Resgatando sua história através do editor de som Wyatt através de testemunhos das pessoas que conviveram com a jovem e manipuladora Leïla, o roteiro do diretor estreante Jean-Philippe Martin parece querer dividir atenções entre Wyatt e Leïla, já que se por um lado a história principal aparentemente é de Leïla, é a história de vida de Wyatt que aparece no meio, como a gravação do perfil de uma ex-mulher em sua vida dá a entender. Dessa forma, há um filme que, dividido, não consegue se sair bem contando a história de seus personagens, já que até o chefe do introspectivo Wyatt parece conter um background mais interessante.

Já a direção de Jean-Philippe é correta, poética e enfadonha até a morte. Seu uso de closes, câmera subjetiva tremendo apenas é aceitável quando intercalada com tomadas mais simples, que incluem o cenário, ou até as belas panorâmicas de Marrocos. Com uma fotografia que mistura frio e quente entre os ambientes, não sabemos o que o filme quer dizer, exceto parecer um trabalho mais profundo do que na verdade é. Além disso, mesmo sendo idealmente um filme sobre os sons – humanos ou não – curiosamente a trilha sonora é quase completamente suprimida, exceto uma musica branca para gerar transições. Além disso, os sons capturados por Wyatt de nada adiantam para desvendarmos o filme, pois o som ambiente tanto da França quanto da África parecem se confundir. Ouvir pássaros e grilos se torna uma tentativa patética de dar vida aos cenários externos.

Ao final, somados os prós (direção correta) e contras (quase todo o resto) o filme ainda consegue ser assistido sem maiores percalços, o que é uma forma bonita de dizer que o espectador não vai morrer de tédio durante a sessão, mas tão pouco irá morrer de amores. Para um filme que brinca com o som, algo virtuoso na arte do Cinema, acaba se tornando para o espectador médio ruim e medíocre, mas para o cinéfilo decepcionante.

Wanderley Caloni, 2016-10-31. Sonar. Sonar (France, 2016). Dirigido por Jean-Philippe Martin. Escrito por Jean-Philippe Martin. Com Naidra Ayadi (Leïla), Bernie Bonvoisin (Wyatt), Emine Meyrem (Amina), Batiste Sornin (Thomas), Bruno Clairefond (Daniel Metz), Sébastien Fouillade. IMDB.