Sour Grapes

Nov 23, 2016

Imagens

Este documentário mostra através de uma narrativa fluida e divertida uma das maiores fraudes na história do vinho. Pegando carona com a bolha de 2008, acompanhamos a história de Rudy Kurniawan, um asiático muito simpático que se inseriu na rodinha de velhos colecionadores de vinho e conseguiu ganhar amigos, fama, e muitos, muitos milhões.

No fundo, não há muito o que contar da história em si além da velha sequência de passos que levam pessoas bem-intencionadas a serem enganadas por alguém, como sempre, acima de qualquer suspeita. Dessa maneira, os diretores Reuben Atlas e Jerry Rothwell vão apresentando aos poucos todos os envolvidos na trama, começando pelo produtor de vinhos Laurent Ponsot.

Produtor de vinhos em Borgonha, região tradicionalíssima na França, Ponsot fica intrigado ao descobrir que um de seus vinhos leiloados em Nova Iorque foi acusado como falso. A partir dele acompanhamos a descoberta de um colecionador compulsivo de coisas – entre elas, vinhos – que descobre que no meio de sua volumosa adega encontram-se exemplares de vinhos cuja fonte é justamente Rudy Kurniawan.

Rudy, uma pessoa sempre acompanhada por um de seus melhores amigos, o diretor Jefery Levy, contém um histórico de imagens graças a ele, o que permitiu que os diretores e seu editor, James Scott, compusessem cenas com o colecionador/degustador de vinhos recém-chegado na Califórnia e um popstar por onde passasse. Todos ficavam impressionados com sua “paleta” (a quantidade de vinhos experimentados por ele) e ninguém sabia sua origem. Uma pessoa fácil de lidar, e que justamente por isso traz nos testemunhos de seus amigos um traço de decepção misturado com admiração.

Através do filme, conseguimos acompanhar o processo de falsificação de vinhos e também como funciona esse mercado de colecionadores. Entendemos o crescimento descomunal dos preços e do próprio mercado graças a duas bolhas (o .com e o de 2008), e uma pequena parte impulsionada pelas cada vez maiores vendas de Ruby em um leilão conceituado em Nova Iorque que logo quebra recordes em volume financeiro.

É interessante notar como nesse mercado, uma fraude é sequer vista e acompanhada, e os culpados raramente serão descobertos ou sentenciados, já que as vítimas aparentemente preferem acreditar na mentira da autenticidade de sua adega a ter que abrir os olhos para a realidade. E não se trata apenas de dinheiro, já que para a maioria esse é apenas um detalhe (como o próprio Rudy diz em certo momento).

Aliás, é muito engenhosa a criação da narrativa em Sour Grapes, já que Rudy parece fazer parte da maioria dos momentos, sendo que ele sequer respondeu ao pedido de entrevista dos produtores. Várias de suas frases são utilizadas de maneira criativa para pontuar o que está sendo dito por seus ex-amigos e pelos especialistas que vão à caça da verdade. Além disso, as somas vultosas das operações se tornam cada vez mais inacreditáveis conforme a história avança, e as investigações se tornam realmente empolgantes quando vai sendo descoberta a origem de Rudy e sua família.

Por fim, fica a pesada lição de moral: se mexer com homens ricos, é bem capaz que sua pena seja maior do que a de alguns assassinos.

Wanderley Caloni, 2016-11-23. Sour Grapes. Sour Grapes (UK, 2016). Dirigido por Reuben Atlas, Jerry Rothwell. Com Laurent Ponsot (Himself, wine producer in Burgundy, France), Jay McInerney (novelist and wine columnist Himself), Jefery Levy (Himself), Maureen Downey (wine consultant Herself), Rudy Kurniawan (convicted wine counterfeiter Himself), Rajat Parr (sommelier Himself), Arthur M. Sarkissian (Himself), Corie Brown (Herself, food and wine writer, Zester Daily), Don Cornwell (lawyer and burgundy wine expert Himself). IMDB.