South Park - Vigésima Temporada, Episódios 1 a 4

A vigésima temporada de South Park começa em um tom dramático que esconde o humor ainda mais dentro do absurdo de suas situações. Não deixa de ser poderosa sua mensagem, mas ele está se tornando, desde a temporada anterior, um longa-metragem anual de três horas e pouco. Isso é bom ou ruim? Talvez seja necessário esperar o fechamento do arco deste ano para termos certeza.

O que a série criada por Trey Parker, Matt Stone e Brian Graden parece nunca temer é ousar além dos caminhos de seus semelhantes (Simpsons, e Family Guy, isso é sobre vocês). Isso por um lado pode levar a resultados bem medíocres ou desastrosos, mas ainda ganha créditos por utilizar os personagens em situações que fazem todo sentido para eles, e ao mesmo tempo não, já que esta é uma série de humor.

E o humor parece quase nunca existir nas situações pontuais da trama, que começa com os famigerados Member Berries, uma fruta que é vendida em cachos como uvas, formada por carinhas simpáticas que concordam com todas as memórias dos anos 80 e 90, que hoje são revividas em uma reciclagem de forma (e não de conteúdo) por J. J. Abrams, que pegou para si as missões de ressuscitar as séries Star Trek e Star Wars, ícones de duas gerações diferentes de nerds. Agora ele aceita a missão de reviver algo que está cada vez mais perdido, como monstram as eleições americanas deste ano: o hino nacional.

E o hino nacional é apenas uma chave para desvendarmos toda a miríade de metáforas e símbolos da série. O patriotismo americano não é o que está em jogo, mas o significado disso em primeiro lugar. Se as pessoas estão mais interessadas na discussão política entre escolher um babaca e um sanduíche de cocô (dualidade essa já feita na temporada 8), e em quais atletas irão se sentar ou não durante o hino (mesmo que seja em um jogo da escola regional), há algo de errado na vida real.

E é justamente essa a outra vertente da trama esse ano. Quando uma aluna cuja mãe é atacada por um troll de internet decide cometer a trágica decisão de… sair de seu Twitter, os alunos se reúnem com o conselheiro da escola para mandar tweets acalorados sobre a aluna, presente em corpo, mas destituída de seus direitos civis na internet: ter uma rede social. E do outro lado do oceano, na Dinamarca, terra natal dos lendários trolls (os da vida real), uma celebridade comete suicídio. A ponte entre member berries e as escolhas das pessoas no dia de hoje é sutil e vai engrossando conforme avançamos na história… mas é preciso apenas dizer que memórias não vêm em unidades, mas em cachos. O reboot de Star Wars e a escolha de um candidato que irá fazer “a América ótima novamente” afastando imigrantes do país não é uma triste coincidência.

É em cima dessa estrutura que os meninos e meninas de South Park adentram em uma luta de classes… quer dizer, de gêneros. Bom, pouco importa. Quando o diretor da escola é um SJW (Social Justice Warrior, ou Guerreiro da Justiça), ou seja, um levantador de bandeiras sociais com o uso do escudo do politicamente correto, qualquer motivo é um motivo válido para que grupos se ordenem não por causa do que indivíduos fizeram, mas sua representatividade nesse caldo irracional das maiorias e minorias.

Com os levantes dessas bandeiras, e com a criação novamente de uma mega-trama que tende a tomar a temporada inteira – como foi, aliás, no ano passado – South Park oficialmente parece ter se dedicado imensamente mais a criar histórias dentro do contexto, e não perder mais tempo com piadas pontuais. Nesse sentido, ultrapassa Family Guy em milênios. Porém, fica a dúvida: isso será, de fato, engraçado?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-15 imdb