South Park

Jul 28, 2015

Imagens

Comecei assistindo essa animação já “decanária” (10 anos?) recentemente através das temporadas disponíveis na Netflix brasileira. O resultado foi um entusiasmo tão grande e egoísta que praticamente parei o meu ritmo frenético de filmes para reservar boa parte dos meus fins de semana e noites para ir até o último capítulo disponível da versão dublada em português. Posso dizer que aprendi muito sobre a vida, o mundo, a sociedade, e mim mesmo. Cada episódio polêmico me fazia ler os detalhes sórdidos através da Wikipedia, como o clássico Trapped in the Closed, que praticamente me obrigou a rever o “episódio de despedida” de Isaac Hayes em sua versão original, um recorte hilário de dublagens passadas do ator/cantor.

No entanto, seria injusto ignorar todo o passado desde o programa piloto criado a mão por Trey Parket e Matt Stone, que além da direção e roteiro emprestaram suas vozes para 90% das dublagens dos personagens. É uma obrigação moral acompanhar a evolução de um desenho que me fez pensar mais e rir mais do que os Simpsons, que já são um marco na história das críticas sociais daquele país.

E tudo começa com “Cartman tem uma Sonda Anal”, onde a tosquice completa imperava. Não podia ser diferente. A irreverência ao máximo e as piadas escatológicas/sexuais são o grude primordial usado pela dupla de criadores para alimentar o desenho aparentemente ingênuo, mas que possuía já a semente da auto-crítica, pronta para germinar. Tudo o que tínhamos até o momento era o cômico jogo de “chute o bebê”, mas mesmo isso é algo que nunca faríamos na vida real e que nunca sequer falaríamos que passou pelos nossos pensamentos. Mas, acredite: passou. O ser humano precisa ser sociável e se esquece que é um animal egocêntrico lutando por sua sobrevivência em grupo, e para isso, faz de tudo. Esconde e suprime. Mas está lá. O instinto politicamente incorreto é a porta de abertura para a necessidade de nos definirmos como grupo. South Park estava aí justamente para escancarar algumas verdades sem ressalvas.

E é por isso que mesmo em sua irregular primeira temporada já podemos observar o crescimento daquele semente relevante e mal-educada. Em Ganhe Peso 4000 já observamos a psique dos perdedores em uma ácida referência a Taxi Driver. Em Vulcão a burrice institucionalizada é vista de perto, seja nas leis de proteção aos animais (“atire, ele vai nos atacar!”) quanto as leis de proteção aos humanos (“vamos desviar a rota de toda essa lava”).

Mesmo as questões ainda inertes em nossa sociedade já começam a tomar forma, como a homossexualidade em A Grande Viagem Gay de Barco (e a própria palavra “gay” será posta em cena 13 anos depois em “The F Word”). De qualquer forma, ainda não é hora de polemizar demais, então ficamos por enquanto nas questões menos controversas, como aquela vez que um elefante fez sexo com uma porca ou quando o avô de Stan pede que ele seja morto.

E por falar em temas contemporâneos, não é que uma década antes de The Walking Dead já temos um exemplo de futuro pós-apocalíptico com Olhos Cor-de-Rosa? E a questão do convívio entre diferentes religiões em um mundo cada vez mais ateu em um exemplo secular e completamente hilário de figura natalina em Soretinho, o Cocô de Natal? E se pensar em um cocô de natal parece repugnante, o que dizer do episódio em que o Sr. Garrison se vê perseguido por mulheres por ter feito uma plástica que o deixou atraente e a namorada de Stan fazer de tudo para acabar com sua professora substituta simplesmente por ela ser bonita? E claro que não posso deixar de citar no parágrafo sobre religião a visão extremamente cínica da sociedade vista na luta entre o Diabo e Jesus, claramente um dos pontos altos dessa semente de auto-crítica forçando para dominar sobre o escatológico.

Mesmo que ainda seja extremamente escroto e se divirta com a construção irregular de seus personagens (que muitas vezes oscilam todos para um perfil Cartman para logo depois voltar de um aprendizado de moral), South Park S01 já possui um subtexto superior a qualquer coisa animada (ou mesmo comédias) que saiu do Cinema nos últimos 5 anos. Apenas isso é prova do poder da caixinha luminosa frente ao horrivelmente politicamente correto da indústria cinematográfica americana.

Wanderley Caloni, 2015-07-28. South Park. South Park (USA, 1997). Dirigido por Trey Parker, Eric Stough, Matt Stone. Escrito por Trey Parker, Matt Stone, Brian Graden, Kyle McCulloch, Vernon Chatman, David R. Goodman, Erica Rivinoja, Pam Brady, Nancy Pimental. Com Trey Parker, Matt Stone, Mona Marshall, April Stewart, Isaac Hayes. IMDB.