Spotlight: Segredos Revelados

Esse é um filme que foca obcecadamente em seus fatos. A ponto de sacrificar seus personagens. E tudo bem. O material de Spotlight é bom o suficiente para funcionar sem qualquer personagem de destaque, muito embora Mark Ruffalo quase consiga algo interessante.

Conta a história da investigação de um jornal local de Boston quando um caso antigo de padres molestadores de crianças é desengavetado pelo recém-chegado editor, o ponderado Marty Baron (Liev Schreiber). Usando para isso uma equipe independente que trabalha em uma sala à parte usando métodos à parte, o chefe do departamento Spotlight, Walter ‘Robby’ Robinson (Michael Keaton), aciona sua dinâmica equipe à caça desses acontecimentos, descobrindo no processo um sistema mantido sob a luz da autoridade da igreja e os olhos e bocas fechadas de sua comunidade.

Todo filme que desafie as pessoas a repensar a questão da autoridade, e de como ela polui nossas mentes, impedindo-nos de pensar por si mesmos é válido. E essa história talvez seja uma das mais tenebrosas que diz respeito às consequências desastrosas da religião – no caso, da católica cristã – sobre seus fiéis, jovens ou não. Ela parece tomar lados, mas apenas do lado mais fraco, sendo que até os padres parecem ser vítimas de uma seita desumana e doentia. Ao tornar os padres celibatários e mantê-los como mensageiros de Deus em suas comunidades, o poder de destruição psicológica perante crianças que não conseguem sequer ajuda de seus pais é imenso.

E o filme vai desvendando cada detalhe desse intricado sistema, que pretende antes de tudo proteger a imagem da igreja e evitar mais escândalos, utilizando jornalistas que, como a grande maioria, também foi criada sob a mesma fé. Uma das jornalistas frequentava até há pouco as missas dominicais com sua avó. Um outro nutria um desejo íntimo e inconsciente de, apesar de não praticar mais, pertencer ao mesmo grupo religioso de criança. O objetivo é claro: não separar a opinião do espectador crente do que foi descoberto, mas tentar fazê-lo enxergar o horror das descobertas dessa equipe através do mesmo ponto de vista. E com isso, adquirir o apoio de sua audiência.

É possível sentir a pressão de todos os lados contra o uso da imprensa para “difamar” a comunidade, sendo que difamas no caso é apenas dizer a verdade. Advogados, sacerdotes e a própria imprensa foi colocada no bolso por décadas. Spotlight consegue fazer tudo isso apenas com o dom do diálogo e muita pouca interpretação. Não há nada de brilhante nisso, exceto pelo seu modus operandi: parece quase que invisível enxergar algum drama nessa história.

É um filme que visualmente não apresenta quase nada, mas que no campo das ideias, é interessante do começo ao fim.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-02-29 imdb