Star Trek: Sem Fronteiras

O reboot megalomaníaco da série de filmes inspirada pela série televisiva nerd dos anos 60 está com muita bala na agulha para poder gastar e pouca vontade de arriscar. Isso quer dizer que o novo filme com Capitão Kirk e Spock tem basicamente o mesmo enredo do filme anterior (Além da Escuridão) tirando a emoção.

Porém, a boa notícia é que os efeitos visuais gerados por computador têm garantidos boas supressas esse ano. Além do ótimo Warcraft, Star Trek possui algumas das sequências descritivas que irá tirar o fôlego do espectador, particularmente a apresentação de uma gigantesca estação no espaço criada pela Frota Estelar para manter uma base de apoio nas profundezas do limite onde humano algum jamais foi. Além disso, a versão 3D faz um ajuste mais que esperado: nas cenas escuras com pouca profundidade, apela ao 2D, auxiliando na claridade para quem está com óculos tampando metade da luz.

Em termos banais, essa nova aventura é onde a Enterprise irá para a periferia do espaço explorado pela civilização da Terra e irá encontrar ainda muita selvageria que precisa ser colonizada. Isso inclui uma pequena dose de filosofia de botequim, quando Capitão Kirk pensa em abandonar o posto da Enterprise por não ver mais sentido naquelas longas jornadas a bordo de uma nave que parece desconhecer limites, exceto o da ignorância dos povos do espaço longínquo, onde tenta sempre vir com diplomacia e hospitalidade.

Enquanto isso, Spock, interpretado cada vez melhor por Zachary Quinto, ainda pensa em seu povo vulcaniano e a dívida que teria com eles, o que gera um certo conflito bobo com sua namorada, a Tenente Uhura (Zoe Saldana). Além disso, há um pequeno ensaio para acrescentar a trágica morte do ator Anton Yelchin e seu personagem Chekov à série, que vai junto no mesmo ano que Leonard Nimoy, o Spock original.

Além dessas duas mortes, Star Trek anuncia sua próxima morte como produto inventivo nas mãos de vários roteiristas (incluindo Simon Pegg, que faz mais o engenheiro bem-humorado da Enterprise). Entrando oficialmente no automático, o filme é esteticamente belíssimo e funciona bem como ação e um pouco de espírito de equipe embalado nos embates cada vez menos intelectuais dos tripulantes da nave icônica, que representam o mundo como o vemos. E esse mundo, aparentemente, está dando sinais de desgaste (o real e o futurista, de 250 anos à nossa frente).

É por isso que há (mais uma vez) um personagem coringa que irá anunciar que o ser humano está nos limites do seu conhecimento e de seu propósito, onde o embate entre a civilização e sua mensagem de paz e seu velho estilo selvagem de lutar e conquistar territórios entra mais uma vez em conflito, o que não deixa de ser, mais uma vez, uma bela analogia com a Europa invadida por bárbaros do século XXI, anunciando prematuramente seu fim como um paraíso socialista. O artefato usado como ameaça no filme é de um simbolismo à coletividade exagerado, e o próprio ataque que é feito à Enterprise se utiliza da mesma artimanha, sendo aliás, visualmente muito semelhante a Matrix Revolutions, um filme muito subestimado na época em que foi lançado, mas que continua surpreendendo em suas influências póstumas.

A despeito da mensagem dúbia que o filme traz, ele parece querer evitar a todo custo adentrar muito na complexidade da trama (que é bem simples) e das implicações de seu conflito até as últimas consequências, preferindo o desfecho simples e físico aos reais conflitos intelectuais das duas formas de enxergar o propósito do homem no mundo. Ele ainda tem a audácia de repetir o mesmo terceiro ato do filme anterior, mas com muita preguiça e leveza.

Aparentemente não há fronteiras para a mediocridade no Cinema atual. Nem para séries ambiciosas intelectualmente como Star Trek.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-09-07 imdb