Star Trek

Wanderley Caloni, April 16, 2012

Um filme que foi onde a série antiga de filmes jamais esteve.

Baseado em um seriado dos anos 60 escrito por Gene Roddenberry (1921-1991) onde a nave U.S. Enterprise comandada pelo Cap. Kirk explora o espaço e tenta manter a paz entre os Planetas Confederados, Star Trek já começa o projeto com um enorme desafio. Juntos, tanto a pressão dos fãs para que o reboot da saga seguisse os mesmos rumos da série original — focada no intelecto das situações — quanto a pressão comercial para que o filme não fizesse as pessoas acostumadas às explosões no espaço de Star Wars e derivados bocejassem na sala de projeção conspiravam para seu fracasso completo.

No entanto, eis que surge um roteiro desenvolvido pelo dupla Roberto Orci e Alex Kurtzman que consegue ao mesmo tempo ser inteligente e ágil (e é difícil conceber que ambos assinam o roteiro da catástrofe megalomaníaca de Michael Bay, Transformers 3). A história resolve focar, de maneira orgânica, na montagem da tripulação original da Enterprise e a história de seus principais tripulantes, notadamente — claro — Capitão Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto), o vulcaniano que não sente emoções e que é o contrapeso do instintivo Kirk.

O filme surge como um recorte fluido de situações que favorecem tanto o embate físico quanto o psicológico, como podemos notar na primeira parte da saga através dos atos dos jovens jovens Spock e Kirk, em linha com suas futuras personalidades. Ciente disso, a direção sempre constante de J. J. Abrams emplaca rimas magníficas que adicionam profundidade à trama, como o momento em que o pequeno Kirk destrói uma “antiguidade” ou no momento que observamos a metade humana do jovem Spock dando vazão à sua raiva e incompreensão diante de sua origem mestiça.

Tudo isso, porém, ainda seria chato se não pudesse despertar no espectador médio o interesse pela trama, que consegue se construir apenas através do desenrolar natural das relações entre os personagem e das belíssimas “tomadas externas” do espaço aberto e de planetas exóticos, que não funcionam apenas como meros efeitos, mas criam o contraponto necessário com a gigante e ao mesmo tempo minúscula Enterprise. Ainda construída em cima da nave, as cenas mais movimentadas conseguem ser não apenas ágeis mas inteligentes, pois refletem as personalidades de seus personagens, como (mais uma vez) as ações impensadas o incauto Kirk e as frias decisões do ponderado Spock.

Até mesmo o humor está presente, de maneira pontual e que funciona perfeitamente como alívio cômico dos momentos de tensão que este intercala. O timing cômico de Chris Pine e Simon Pegg como o empolgado/atrapalhado Scotty conseguem criar um contraponto humano às atitudes sempre milimetricamente calculadas da tripulação da Enterprise.

Porém, o que chega realmente a dar um nó na garganta é a maneira orgânica com que o novo Jornada consegue explorar e homenagear a série antiga. Mesmo para quem não conheça quase nada sobre o original, será difícil passar ileso da maestria com que a história consegue explicar uma improvável relação. (Quem dirá o que os fãs devem pensar.)

Conseguindo criar um desfecho satisfatório e que ao mesmo tempo abre o leque de possibilidades para continuações, o novo Star Trek é uma notícia muito positiva para os cinéfilos, pois consegue através de decisões inteligentes e bem orquestradas agradar gregos e troianos, algo que, diga-se de passagem, não é tão fácil em outras galáxias tão tão distantes.

Assistido logo após a estreia da sequência.

Agora que o segundo filme da nave Enterprise chegou fica claro o empenho de J. J. Abrams em estabelecer a amizade entre Kirk e Spock, além da confiança e dedicação do primeiro com sua tripulação, como pilares para qualquer aventura que a nave da Federação tenha pela frente.

Star Trek não é ainda um “Star Wars para adultos” porque seu foco não se localiza na emoção das arrancadas da Enterprise ou em seus tiros e duas avarias. Por enquanto, graças a um delicado trabalho de composição do diretor, roteiristas e elenco, a pirotecnia da ação fica escalada como entretenimento George Lucas, mas isso não prejudica o fã dos detalhes mais fascinantes da agora série: como humanos conseguiriam a sanidade no espaço com os seus riscos sempre iminentes, a solidão das decisões de seus líderes e o empenho individualizado de cada membro desse grupo que, antes refém da tecnologia que os possibilita viajar para as galáxias mais distantes, são reféns do destino que escolheram.

Nesse sentido, é justificável que Abrams decida investir tanto tempo no primeiro filme justificando as escolhas de cada elemento da tripulação. E não estou falando apenas de Kirk e Spock, mas cada cena com um dos participantes da série clássica ganha um ar de substituição à altura, o que garante o imenso prazer do fã e evita que o espectador iniciante se aborreça ao ter que conhecer tantas pessoas diferentes de uma só vez (que, diga-se de passagem, aqui são tratados como seres de carne e osso, ainda que menos dramáticos que os protagonistas).

Pelo contrário. Se há algo que vai na contramão da obra de George Lucas é a criação de personagens. Para Lucas, são todas figuras icônicas que merecem ser reverenciadas (quando a maioria não merece mais do que uma olhada). Para Abrams, são pessoas comuns tentando dar o máximo de si na aventura singular de exploração do espaço. As comparações são descabidas, mas ensinam a nos pensar o que distingue Star Trek como série.

Imagens e créditos no IMDB.
Star Trek ● Star Trek. Star Trek (USA, 2009). Dirigido por J.J. Abrams. Escrito por Roberto Orci, Alex Kurtzman, Gene Roddenberry. Com Chris Pine, Zachary Quinto, Leonard Nimoy, Eric Bana, Bruce Greenwood, Karl Urban, Zoe Saldana, Simon Pegg, John Cho. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2012-04-16. Revisto em 2013. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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