Star Wars: O Despertar da Força

É previsível, esperado e inevitável que o primeiro filme que não é controlado pelo idealizador da série, George Lucas, contivesse tantos elementos repetidos, que soam como um remake ou homenagem bem intencionados. Ou podemos refletir um pouco mais e chegar à conclusão comercial que, do ponto de vista dos fãs, faz todo o sentido abraçar os três filmes clássicos, agora sob as asas da fabricante e líder de franquias em vendas – e isso quase nada nos cinemas – que é a Disney.

Já no início, um estranhamento conhecido. Star Wars: o Recomeço, não deixa de mostrar, pela sétima vez, seu letreiro flutuante que foi por muito tempo símbolo do pop artístico e uma marca cult dos excitantes anos 70 a 90. Porém, diferente dos créditos iniciais sempre iguais dos filmes de Woody Allen – previsível, monótono e charmoso – aqui temos um resquício jurássico que hoje, incríveis quase quarenta anos depois, parece simplesmente um recurso brega aplaudido por gerações que aprenderam que ser nerd, quase como uma receita de bolo, é assistir a esses filmes no espaço e acreditar ingenuamente que seus valores na vida real fazem parte da eterna luta da Resistência contra o Império.

Um auto-mind trick considerável, diga-se de passagem.

Mas o inevitável em Episódio VII não fica apenas nos letreiros. Juntando o que há de melhor em termos de referência no primeiro filme – Uma Nova Esperança – e o melhor de todos, de acordo com os fãs – O Império Contra-Ataca – o filme dirigido por J.J. Abrams e escrito por ele e mais dois colaboradores (Lawrence Kasdan, O Império Contra-Ataca, e Michael Arndt, de Pequena Miss Sunshine) consegue criar uma estrutura impressionantemente coesa, fluida, e até dramática, mas sem apresentar praticamente nada de novo. Abraçar os dois primeiros filmes é até compreensível do ponto de vista afetivo; obrigar-nos a ver pela terceira vez uma Estrela da Morte – ou o que o valha – mesmo que introduzida com um dos melhores efeitos do filme, é talvez pedir um pouco demais.

Há diferenças na trama dessa vez? Arrisco dizer que não. Este é um reboot com nada de novo, assim como J.J. Abrams fez com Star Trek (só que lá com muito mais charme e dedicação). A não ser que você seja racista e/ou sexista e ache que pelo simples fato dos heróis da história serem uma mulher e um negro isso represente uma grande diferença com os trabalhos já citados. Não representa. Star Wars é um universo rico demais para se deixar levar por detalhes como esse. Estamos em um mundo onde diferentes seres de vida inteligente interagem e convivem por diferentes planetas da galáxia. Sério que sexo e cor da pele são tão relevantes assim? Seria o fetiche pelo politicamente correto o antigo fetiche por naves gigantescas?

Se há algo de novo neste filme, e isso não deixa de ser irônico, são os efeitos visuais. Diferente da nova trilogia 1999-2005, que abusava sem critérios do digital, aqui há uma mescla inspirada que consegue trazer o “realismo” da trilogia clássica. Além do mais, o músico John Williams parece ter acertado o tom muito mais em seu sétimo trabalho na série, conseguindo criar trilhas novas que pertencem ao mesmo universo. É graças a ele que não precisamos fazer uma lavagem cerebral para tirar o tema clássico da cabeça, já que este é usado de maneira econômica e inteligente apenas nos momentos que cenas e referências clássicas são evocadas (ainda assim, não deixa de ser sua melhor tirada a marcha imperial em um crescente sutil e ao mesmo tempo presente durante os episódios I e III). Ainda no aspecto técnico, talvez a maior decepção seja o novo Lord, o Líder Supremo Snoke. Interpretado por Andy Serkis por captura de movimento, sua figura animalesca pode tentar evocar o mal encarnado, mas dificilmente as expressões de Serkis fogem do óbvio e do já encontrado em sua interpretação de Gollum no Senhor dos Anéis.

E se o que pareço fazer aqui são mais e mais comparações com os filmes anteriores, não é de forma gratuita. O Despertar da Força pede a todo o momento essa comparação, trazendo planetas e raças recorrentes, e, talvez o pior, os próprios personagens da saga original, sempre tentando se levar pela inércia de seu universo. Felizmente, o resultado está sempre à altura, nunca decepcionando nem fã nem cinéfilo (se desapontar, será pela falta de novidade).

Porém, se a decisão de trazer de volta Hans Solo (Harrison Ford), princesa Leia (Carrie Fisher) e Luke Skywalker (Mark Hamill) pode parecer puro marketing, o terceiro ato do filme faz valer a pena essa ressurreição, pois pelo menos duas reviravoltas, uma tensa e outra empolgante, que já entram na coleção de melhores momentos da série, só são possíveis graças aos elementos resgatados por suas personas. Obviamente ambos os momentos têm relação com o icônico sabre de luz (que aqui parece tomar forma mais científica sem entrar em detalhes embaraçosos, como tentou George Lucas na nova trilogia), e, sem querer estragar a surpresa, com pelo menos um momento já repetido da saga.

Terminando obviamente com abertura para continuação(ções), mas felizmente entregando também um desfecho satisfatório (diferente dos trabalhos com super-heróis ultimamente), O Despertar da Força está longe de ser memorável e mais longe ainda de ser original, mas nem por isso não se estabelece como um exemplo à altura do universo. Que a força esteja com J.J. Abrams!

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-01-08 imdb