Star Wars: os Últimos Jedi

Uma série de filmes que mantém uma mitologia sobre uma energia vital no Universo por décadas precisa ser atualizada de tempos em tempos para não perder o compasso com a Ciência. Se na primeira trilogia a Força era algo mais espiritual e na segunda trilogia algo mais biológico, essa terceira trilogia acertadamente a coloca como nem uma coisa nem outra: é algo metafísico. E com isso estabelece pela primeira vez uma base que se pode trabalhar com as diferentes camadas de realidade. Não só mais falamos sobre política em SW (essa dualidade esquerda/direita já cansou), mas sobre filosofia, moral, valores, etc. Quem diria que Star Wars chegaria em sua fase adulta?

Um dos traços mais fascinantes do universo de Star Wars nos cinemas reside em sua compreensão cada vez maior do começou a ser criado na década de 70. Nascido das super-produções fantasiosas que pipocavam por todos os lados (espaciais ou não), e estabelecendo-se como um marco no Cinema de entretenimento e arte, o universo de George Lucas faz 40 anos e continua impressionando seu público contemporâneo e ainda respeitando seu público antigo (e isso sem contar os que pegaram carona no meio do caminho, como eu, nascido em 79). Mas isso não quer dizer que é necessário que os erros da fraquia tenham que estar sempre lá. Esqueçamos os midichlorians por um instante, pois este não chega nem a estar perto de Jar Jar Binks na lista dos piores tropeços.

E por falar em tropeços, parece que nessa série eles são aglutinados, sofrem transformação e renascem como algo melhor. A própria figura do Jar Jar Binks pode ser vista aqui como um C3PO mais contido (que é o lugar para um personagem como ele). E os midichlorians viraram algo que apenas um Jedi no final de um arco poderia capturar. Foram necessárias várias aventuras para que Luke Skywalker conseguisse se provar não apenas como um acidente da natureza messiânico, mas como o mentor de toda a “congregação” que representa o equilíbrio do Universo. E é claro que a participação especial de outro Jedi especial na saga é uma surpresa bem-vinda pelo potencial de fechar amarras.

A impressão geral da experiência é que não só alguns aspectos renascem reinterpretados; filmes inteiros também. O Episódio VII poderia ser entendido como uma mistura entre os Episódios IV e V, e este oitavo faz com que pensemos nele como um reboot do V, pelo seu clima pesado e dramático (pelo menos até o ponto em que Star Wars consegue ser dramático). Porém, além de se tornar um “Contra-Ataca Reloaded”, ele quebra vários paradigmas que refletem a época em que vivemos (insegurança sobre o que é certo e errado). E apenas para citar algo do terceiro ato sem incorrer em spoilers, imagine o peso que a revelação sobre os pais de um certo personagem podem ter em uma série como essa que pega tanto na questão da herança de sangue, e reflita agora sobre a decisão do roteirista. Ele não está tentando repetir memórias ou torná-las recicladas, mas fazendo o fã refletir e questionar algo já estabelecido por vários filmes.

E isso é apenas um minúsculo exemplo do que o trabalho de Rian Johnson faz aqui. Diretor e único roteirista deste Episódio VIII, o cineasta responsável por algumas das melhores partes da série Breaking Bad além do ótimo Looper mostra que é possível sim apostar na novidade em algo já estabelecido. Aliás, talvez esse seja o caminho para sairmos do marasmo de grandes produtoras de fantasia como a Marvel. Claro que EpVIII mantém o mesmo formato, os mesmos letreiros, fade-ins, fade-outs, histórias paralelas, heróis desconhecidos, etc. Porém, observe as diferenças: surgem novas questões a respeito da luta dos rebeldes contra o Império, novas formas de enxergar o lugar que os Jedi têm nessa história, e até novas maneiras que as pessoas enxergam esta guerra e o que ela significa.

Toda essa miscelânea de conceitos tinha sido adiada por vários filmes que foram apenas acumulando mitologia e sua história até chegarmos no Despertar da Força. Agora é a hora de recontar lendas e conquistar um novo público, mantendo o atual. Algo que “Os Últimos Jedi” consegue de ponta a ponta em sua história. Esta é a união entre o velho e o novo para seguirmos adiante em uma história paralisada por mais do mesmo por muito tempo. Cansados de lutas de sabre de luz medíocres, truques de batalha já vistos em outros filmes e revelações que beiram o novelístico (“eu sou seu pai”; ainda que funcionem), EpVIII suspende tudo isso iniciando vários arcos entre vários personagens ao mesmo tempo, conseguindo a proeza de contar uma história sobre a guerra sobre os mais diferentes pontos de vista conseguindo entregar mais ou menos o mesmo peso para cada um deles. Aqui acompanhamos não apenas as decisões dos comandantes e capitões, mas também dos pilotos, dos místicos, dos androides, criatura, camadas sociais e até de uma mecânica (Kelly Marie Tran, uma revelação), que protagoniza toda a síntese do que os criadores deste filme querem dizer. É dela também a fala que sintetiza isso: “devemos parar de destruir o que odiamos e abraçar o que amamos”.

Justiça fosse feita, todos os quesitos técnicos de Star Wars seriam indicados e premiados este ano. Começando pela fotografia (incluindo direção de arte e figurino) que consegue juntar diferentes mundos sob a mesma dualidade entre luz (cores quentes, sol e poeira das naves defasadas dos rebeldes) e trevas (cores frias, penumbra, vermelho e lugares sanitizados como as naves do Império). E terminando na trilha sonora (incluindo uma edição de som vibrante), que utiliza um John Williams que foi feito para trabalhos melodramáticos e poderosos como esse. Além do mais, justiça seja feita novamente, ao menos a edição deveria ser reconhecida, pois não é fácil conseguir não apenas dar o mesmo peso às diferentes questões e personagens que praticamente nunca se encontram durante o filme inteiro, mas saber impor ritmo para linhas do tempo paralela de forma com que elas se complementem, e não se distoem (Bob Ducsay também é o editor de Looper, e isso quer dizer alguma coisa sobre a cena da escada).

Mas tudo isso seria inútil caso o roteiro de Rian Johnson não respeitasse o espectador e fosse entregando as respostas para os mistérios (por que os Jedi devem acabar?) aos poucos e sem estardalhaço, sem pisar na bola com diálogos expositivos. São as ações os argumentos mais válidos desta aventura, pois vários precisam se sacrificar. E são o que eles dizem que dão valor ao que fazem (mas as melhores cenas do final não precisa-se que nada seja dito). E note como depois de horas e mais horas de universo Star Wars ele ainda consegue impactar com a mesma fórmula dramática (os momentos-chave que você com certeza vai lembrar quando sair do cinema), embora elas nunca sejam repetitivas.

Star Wars pode ter feito aqui o seu melhor trabalho. Sim, melhor que Contra-Ataca. Não porque possui o roteiro mais intrincado, ou as cenas mais memoráveis ou os efeitos, direção e virtudes técnicas mais impecáveis. Sim, ele possui tudo isso. Mas o que o torna uma experiência acima de todas as outras é a sua capacidade de ressurgir das cinzas com o mesmo conceito criado há 40 anos atrás em um formato que soe autêntico, ambicioso, provocador e ainda digno de seus fãs mais ferrenhos. Ele ainda se beneficia do acaso, inserindo a cena mais memorável entre Luke e Leia justo no momento que a atriz Carrie Fisher dá adeus ao mundo. E para ela com certeza não existiria melhor homenagem do que este filme.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2017-12-14. Star Wars: os Últimos Jedi. Star Wars: The Last Jedi (USA, 2017). Dirigido por Rian Johnson. Escrito por Rian Johnson, George Lucas. Com Daisy Ridley (Rey), Tom Hardy (Stormtrooper), Mark Hamill (Luke Skywalker), Adam Driver (Kylo Ren), Gwendoline Christie (Captain Phasma), Domhnall Gleeson (General Hux), Carrie Fisher (Leia), Billie Lourd (Lieutenant Connix), Andy Serkis (Supreme Leader Snoke), Joseph Gordon-Levitt, Laura Dern (Vice Admiral Amilyn Holdo), Oscar Isaac (Poe Dameron), Benicio Del Toro (DJ), Kelly Marie Tran (Rose Tico), Justin Theroux (Slicer), John Boyega (Finn), Lupita Nyong'o (Maz Kanata), Warwick Davis, Hermione Corfield (Tallie Lintra). IMDB.