Steins;Gate

2017/10/05

Não é fácil contar bem uma história de viagem no tempo. Mais difícil ainda é conseguir fazer ela ter sentido. E mais difícil ainda é conseguir que o espectador sinta o movimento espaço/tempo dos personagens, a apoteose de todo criador de sci-fi desta linha. Poucos devem ter chegado a essa proeza: De Volta para o Futuro (a trilogia), A Máquina do Tempo, Os 12 Macacos, Efeito Borboleta, O Predestinado, Primer, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. E Steins;Gate, que se esforça em homenagear todos os exemplos citados e ainda superá-los em inventividade. Uma viagem e tanto.

A história da série começa no seu episódio 1, entitulado “Prologue to the Beginning and End” (Prólogo para o Começo e Fim), o que deve servir de dicas para os mais atentos e aviso para os mais incautos que me acusarem se cometer o “sacrilégio” de soltar spoilers sem avisar. Bom, a série já começa com vários deles. Incluindo a primeira viagem no tempo, inexplicável, onde uma garota vista como assassinada pelo auto-entitulado “cientista louco” Rintaro Okabe, que é um moleque de 18 anos de jaleco, em seguida ao envio de uma mensagem de texto pelo seu celular, é vista viva novamente. Paradoxal. Isso junto de uma série de eventos que só farão sentido no episódio final, o vigésimo-quarto, constituem a estrutura geral de uma longa história que percorre personagens criados para anime.

No entanto, a história não é original. Baseada em um uma “visual novel”, um video-game onde os jogadores escolhem a sequência da história, esta adaptação utiliza a mesma ideia construída para o jogo, que é também um fiapo de uma das possíveis teorias científicas a respeito da realidade que vivemos. A ideia é de que existem diferentes linhas do tempo. Infinitas. Umas são mais próximas que as outras, mas basicamente todas seguem uma sequência definida pelas leis da física. A menos, é claro, que você volte no tempo e altere variáveis, no melhor estilo efeito-borboleta, onde uma minúscula informação sobre o tempo, como o bater de asas de uma borboleta, pode gerar drásticas mudanças no futuro, como um tornado do outro lado do mundo.

A ideia por trás de “Steins;Gate” é muito boa, e pode ser melhor explorada em outros trabalhos. Ela permite uma flexibilidade incomensurável aos roteiristas, que a extrapolam para simplesmente contar uma história de anime (onde chegamos no primeiro defeito da série), com reviravoltas feitas para alongar a história, mas que não servem para mover os personagens (como a mudança de sexo de certa personagem), ou eventos que recebem explicações quaisquer, mas que no fundo não explicam nada (como Okabe consegue realizar as diferentes manobras de viagem no tempo para alterar certo evento no futuro, já que está sob ameaça de morte?). Você se acostuma com o ritmo desequilibrado da primeira metade e o lenga-lenga eventual da “moe” permanente da série, Mayuri, que repete o nome Okabe dois milhões de vezes. Você se acostuma porque vale a pena. Afinal de contas, olhe como o figurino de Mayuri é lindamente estilizado como de época, com detalhes como babados e um chapéu recortado, que rementem diretamente ao fim trágico que é referenciado em A Máquina do Tempo (H. G. Wells, 1895).

Ao mesmo tempo, é impossível não se deixar levar pelo tom jocoso e adolescente de Rintaro Okabe, mesmo sabendo que ele representa provavelmente algo mais complexo do que a série tenta mostrar. Novos membros se acumulam rapidamente em seu “centro de pesquisa”, onde um inusitado micro-ondas consegue fazer uma banana voltar no tempo, embora em estado gelatinoso e imprópria para consumo. Ao mesmo tempo, mensagens de SMS de 36 bytes conseguem ser manipuladas para viajar no tempo, graças à ajuda da assistente Kurisu Makise, a mesma que é vista morta no episódio piloto. Juntos eles tentam entender e manipular uma descoberta em seu estágio-larva. E de maneira brilhante, esta vai se parecendo, cada vez mais próxima do fim, uma referência invertida de Os 12 Macacos, onde um futuro distópico poderia ser revertido entendendo qual foi o primeiro voo que gerou tudo isso.

Você vê, há detalhes demais que vão se emaranhando durante a longa série para conseguir despertar no espectador, bem aos poucos, a noção de física que os criadores querem passar, além do gosto por obras do gênero. Inteligentemente os personagens da série consegue descobrir algumas coisas, como o criativo e conveniente “efeito Reading Steiner” do protagonista, mas não conseguem descobrir tudo, como como funciona a consciência das mesmas pessoas em outras linhas do tempo. E com um pequeno toque de magia, pequenas coincidências ocorrem para que os roteiristas consigam focar nos sentimentos em vez da trama, que é fraca e cheia de furos e incongruências. Às vezes essas falhas são feitas apressadamente para conseguir imprimir mais ritmo à história (como as repetidas voltas de Okabe para evitar um acontecimento trágico), e outras vezes elas apenas existem para gerar humor (como as brincadeiras em torno da inusitada filha de um certo personagem).

Apesar do evento trágico que divide “Steins;Gate” entre comédia/drama, a mudança não acontece com competência, e o diretor Yuzuru Tachikawa (um dos 12 da série) não realiza uma transição que é difícil por natureza, assim como não consegue manter a suspensão de descrença após mostrar a facilidade com que o cientista maluco consegue voltar várias vezes ao tempo, além da conveniente revelação sobre a inevitabilidade de certos eventos de acontecerem.

Seja como for, é na segunda metade que a série brilha, e brilha ainda mais nos três últimos episódios (efetivos, não estou contando o episódio bônus da viagem a Las Vegas). Como os trabalhos mais ambiciosos do gênero, a história parece ter sido criada apenas para seu clímax, que brinca com os mesmos conceitos (mais uma homenagem) vistos na trilogia De Volta para o Futuro. Este clímax parece corrido demais, e se para os criadores tudo faz sentido, para o espectador não há pistas/recompensas o suficiente que nos faça voltar ao episódio piloto com certa confiança. De certa forma, esta acaba sendo uma referência mais que apropriada de Primer, um filme que te fará dar nós na cabeça para compreendê-lo.

Ainda que apresentado de forma atribulada, o universo de “Steins;Gate” consegue deixar seu charmoso traço com o detalhe mais poético do “longa” e do próprio conceito de viagem no tempo que eu me lembro: as memórias/sonhos das diferentes linhas do tempo. É aberta a narrativa do amor represado apenas para ter esse efeito visto em seus personagens, e é uma aposta certeira. O momento mais marcante para mim na série não é a morte de determinada personagem, mas uma conversa virada para a janela, inconsequente, mas que termina em um beijo. Um beijo que será refletido na imaginação do espectador que se deixar levar pelo romantismo e pela catarse de fã do episódio-bônus (25). A última cena e a última fala nesse caso merecem destaque.

Não, não é fácil contar bem uma história de viagem no tempo. E difícil também é consegui-la ter sentido. E dificílimo é conseguir nos fazer sentir o movimento quântico de seus personagens, o ápice de todo filme sci-fi que se respeite. Quase nenhum deles deve ter conseguido chegar nesse nível. Ainda bem que “Steins;Gate” conhece o seu lugar, e homenageia as obras certas, enquanto tenta alcançá-los em inventividade. Percebeu a referência?

★★★★☆ Steins;Gate. Japan, 2011. Direction: Kazuhiro Ozawa. Kanji Wakabayashi. Tomoki Kobayashi. Kôji Kobayashi. Tomoko Hiramuki. Shigetaka Ikeda. Hisato Shimoda. Hiroshi Hamazaki. Takuya Satô. Script: Jukki Hanada. Toshizo Nemoto. Masahiro Yokotani. Cast: Mamoru Miyano (Rintaro Okabe / ...). Asami Imai (Kurisu Makise). Kana Hanazawa (Mayuri Shiina). Trina Nishimura (Kurisu Makise / ...). Jackie Ross (Mayuri Shiina / ...). J. Michael Tatum (Rintaro Okabe / ...). Tomokazu Seki (Itaru Hashida). Tyson Rinehart (Daru). Cherami Leigh (Suzuha Amane / ...). Edition: Masahiro Gotô. Cinematography: Keisuke Nakamura. Soundtrack: Takeshi Abo. Jun Murakami. Runtime: Japan:24. Gender: Animation. Category: movies Tags: anime streaming

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