Stranger Things (e a irrelevância da bilheteria Netflixiana)

Aug 4, 2016

Imagens

A Netflix conseguiu mais uma vez. Usando seu algoritmo de análise do que o público quer ver, aí está justamente o que a grande massa adoraria ver: referências doentias aos anos 80 sem qualquer vergonha de se render ao clichê, ou apelar para emoções baratas. As pistas de uma série misteriosa aparecem na primeira cena que são usadas. Além de tudo, o roteiro é preguiçoso.

Note o primeiro episódio. Uma menina aparece do nada, e junto dela um ventilador. Por que esse ventilador apareceu de repente? Porque a menina tem poderes de o fazer parar, e por isso ele entra em evidência apenas na cena em que ela o para.

Nem a participação de Winona Ryder, acostumada com papéis em dramas mais espessos, parece conseguir fazer a experiência deixar de parecer um Super 8 (J. J. Abrams) estendido. Isso porque, mais uma vez, estou apenas me atentando ao primeiro episódio. Acho que não tenho coragem de continuar mais que isso.

Até porque são episódios longos, que exigem que acompanhemos toneladas de referências de uma época que as pessoas que vivem em 2016 possuem uma paixão tão patológica quanto com Star Wars. Inexplicavelmente. Alienígenas, sobrenatural, tons de azul. Bicicletas. Nada parece ser demais nessa série, que saiu diretamente do mecanismo de busca de preferências de uma massa que possui uma seleção ampla no cardápio da sétima arte para se voltar eternamente no feijão-com-arroz. De 30 anos atrás.

Curioso como o que fascina mais as pessoas por trás da série, aparentemente, são as infinitas referências de trabalhos, esses sim, muito mais ambiciosos em explorar um tema. O tema por trás da série é explorar o que os usuários do serviço de streaming gostariam de ver. Claro que não há nada de errado nisso. Se houvesse, não teríamos um House of Cards no meio disso tudo.

Mas para casa House of Cards ou Sense 8 é necessário produzir vários Stranger Things. É a lei da mediocridade fazendo efeito. Não se produz bom conteúdo artístico apenas seguindo um algoritmo. Mas, seguindo um algoritmo, há chances de se produzir algo que o valha. Tanta chance quanto produzir conteúdo autêntico. É a audiência, estúpido!

Wanderley Caloni, 2016-08-04. Stranger Things (e a irrelevância da bilheteria Netflixiana). Stranger Things (USA, 2016). Dirigido por Matt Duffer, Ross Duffer, Shawn Levy. Escrito por Matt Duffer, Ross Duffer, Justin Doble. Com Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono. IMDB.