Street Fighter: Assassin's Fist

Oct 5, 2014

Imagens

Minha impressão é que fãs de qualquer coisa avaliam uma adaptação cinematográfica pela proximidade com o material original. Porém, assim como o espectador médio do Cinema, suas prioridades sempre ficam entre a historinha, os atores e a identificação visual, e quase nunca com o “espírito” da obra original. Não sei se assisti à primeira temporada de Street Fighter: Assassin’s Fist com atenção o suficiente para discorrer a respeito da série, mas tenho certeza que uma possível comparação que eu fizesse com o jogo em que ele é baseado seria inútil. E isso não é exclusividade deste trabalho: filmes (ou séries) devem ser tratados como uma nova criação que, baseada ou não em elementos com grande potencial narrativo, não tem garantia nenhuma de funcionar no peculiar mecanismo audiovisual que nós, cinéfilos e críticos, estamos dispostos a avaliar – consciente e inconscientemente – a cada nova produção assistida.

Dito isto, é curioso constatar que 1) todo o elenco principal de “Assassin’s Fist” (incluindo diretor e roteirista) atua na televisão e Cinema em papéis de menor destaque, e que 2) o formato de web-série tende a gerar uma democratização particularmente empolgante para os cinéfilos cansados de tanta mesmice. Mesmo assim é a mesmice que parece nortear os episódios da primeira temporada, divididos burocraticamente em cerca de dez minutos e que evitam, assim, explorar melhor a linguagem de produções que justamente por sua independência das televisões não precisam se limitar à sua dinâmica já decadente (vejam o que a Netflix faz com suas próprias séries). Pior: usando um roteiro cheio de uma profundidade vazia ou uma filosofia barata, ele se estende em demasiado sobre os mesmos temas batidos da “auto-ajuda para machos”: treinamento focado, luta entre amigos de infância, auto-conhecimento, viagem interior, cuidado com o dark-side, “olha que porrada!”, etc, etc, etc. Até as poucas cenas cômicas saem prejudicadas diante de tanto drama e reverência ao tema, coisa que nem “Warriors”, que flerta com Spartacus em plena década de 80, conseguiu.

A melhor parte do trabalho desse grupo bem intencionado fica limitada justamente no que o fã que mencionei no início desse texto tanto espera: uma porradaria digna de Street Fighter, e não a vergonha alheia do filme do Van Damme (desculpas aos mais sensíveis pela recordação). Aí sim há bons motivos para prestar atenção no que essas pessoas estão tentando fazer, ainda que com um orçamento obviamente apertado. Por buscar criar tensão e suspense na descoberta, aprimoramento e auto-controle de golpes clássicos adorados por milhões de gamers em todo o mundo por décadas, “Assassin’s Fist” acerta em cheio. A questão é: vale a pena ignorar uma história e o desenvolvimento correto de seus personagens quando há um potencial enorme de tornar a porradaria não apenas bonita esteticamente, mas poderosa também na linguagem cinematográfica?

Wanderley Caloni, 2014-10-05. Street Fighter: Assassin's Fist. Street Fighter: Assassin's Fist (UK, 2014). Dirigido por Joey Ansah. Escrito por Joey Ansah, Christian Howard. Com Togo Igawa, Christian Howard, Mike Moh, Akira Koieyama, Shogen, Gaku Space, Joey Ansah, Hyunri. IMDB.