Sully: O Herói do Rio Hudson

2017/01/05

Sully é um trabalho delicado e empenhado não apenas de um diretor que vem crescendo cada vez mais sua sensibilidade a respeito da figura humana, mas também um trabalho de uma equipe de cineastas afiada com a proposta deste simplório e poderoso filme. Ele transforma medo em esperança, resgatando no processo, em um mundo cada vez mais dominado por máquinas e matemática, o surrado, mas ainda de pé, “fator humano”.

E é com esse fator humano que filmes como esse e O Voo (Robert Zemeckis, 2012) se constroem. Sully começa já centrado na figura humana, representada aqui pelo comandante Chesley ‘Sully’ Sullenberger, que acaba de passar por um evento traumático no voo que pilotava, e que agora precisa obter sua autoestima de volta das mãos dos computadores que dizem que sua decisão de pousar no Rio Hudson logo após sua decolagem em Nova Iorque, e não voltar ao aeroporto, foi um simples erro de cálculo.

O roteiro, baseado no livro do próprio Sully, começa timidamente a adentrar neste evento conhecido de todos (pois faz apenas sete anos) e vai sem pressa repovoando nossa mente com os fatos, trazidos em uma cadência importante para a história que se pretende contar, pois este não é um filme sobre este evento, mas muito mais sobre o drama de uma pessoa remoendo não apenas um trauma passado, mas a história de toda uma vida. Depois de quarenta anos pilotando aeronaves que levaram quase um milhão de passageiros ao seu destino em segurança, a competência desta pessoa é posta em xeque em seu último voo, mesmo que todos a bordo tivessem saído intactos.

Não apenas a montagem inspiradíssima “do roteiro” e da direção conferem pelo menos duas sequências irretocáveis – uma quando Sully relembra seus tempos pilotando um avião militar, onde há a sobreposição do avião de outrora com um ancorado no porto de Nova Iorque – como a edição de Blu Murray (colaborador habitual do diretor) consegue manter o ritmo adequado para uma experiência – a investigação do órgão de segurança dos voos – que se arrasta e parece nunca terminar.

Além do mais, a própria fotografia de Tom Stern, que se mantém fria, com tons embranquecidos e azulados a todo momento, já confere esse clima frio do inverno na cidade, ainda que não precisemos de nenhuma neve para este feito. E em adição, quando Sully começa a delirar em seus devaneios, imaginando o caminho deturpado para seu voo fatídico – a base de algum prédio da megalópole – o céu está limpo e cristalino. Quase como uma simulação torta da realidade, que teima em assombrar o experiente piloto. Vale citar, por fim, que apenas a última sequência, que se passa em uma sala, possui os tons quentes, mas límpidos, que revelam ainda o suspense entre um final satisfatório para o conflito interno do heroi e o processo burocrático e desumanizado de toda investigação.

Mas para que tudo isso funcione é necessário que não apenas atores secundários como Aaron Eckhart dê o ar da graça em sua composição enigmática, quase fantasmagórica, de suporte como o co-piloto Jeff Skiles, mas também a única persona possível em desempenhar este papel: Tom Hanks. Você já conhece os trejeitos do ator. Sabe que sua entonação anasalada não é das melhores. Mas aqui Hanks deixa tudo isso de lado e converte em benefício, construindo um Sully que pode não ser o real, mas que transparece toda a dúvida honesta de um sujeito que, apesar de ter repassado mentalmente suas ações naquele momento tenso tantas vezes, continua estático, paralisado, vulnerável.

Até a edição de som, que evoca os barulhos mais estranhos durante o acidente, mas presentes em todo o evento, como o vento, o balanço do barco, o helicóptero ao fundo, consegue se fazer sentir sem invadir o pouco espaço desta breve história. E a trilha sonora da dupla Christian Jacob e Tierney Sutton Band, encabeçada pelo tema composto pelo diretor, consegue se abster quando não é necessária, e soaria por demais melodramática.

Dessa forma, com toda essa equipe sob seus braços, parece um tanto óbvio que Clint Eastwood, o diretor deste filme, não poderia fazer nada menos que um ótimo filme. Essa é a conclusão mais óbvia. Porém, não se engane. A última fala de Sully em seu julgamento revela a própria fala fictícia que Eastwood teria que fazer quando questionado se o único fator que fez deste um filme de relevância é apenas a figura humana de seu próprio diretor. Quando nos lembramos que todo o evento se passou em 24 minutos, e que todos envolvidos fizeram o seu melhor, quase que simbolizando o espírito nova-iorquino, se torna comovente constatar que este último evento envolvendo um avião na cidade demonstra que a cidade, apesar de abalada eternamente pelos ataques terroristas de anos atrás, não deixou abalar seu espírito de solidariedade. Pelo contrário, pareceu fortalecê-lo.

E não retirou seu humor, também, como podemos notar pela última fala do filme, talvez a mais espirituosa que alguém proferiu em um tribunal de acidentes aéreos.

★★★★★ Título original: Sully. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Todd Komarnicki. Chesley Sullenberger. Jeffrey Zaslow. Elenco: Tom Hanks (Chesley 'Sully' Sullenberger). Aaron Eckhart (Jeff Skiles). Valerie Mahaffey (Diane Higgins). Delphi Harrington (Lucille Palmer). Mike O'Malley (Charles Porter). Jamey Sheridan (Ben Edwards). Anna Gunn (Elizabeth Davis). Holt McCallany (Mike Cleary). Ahmed Lucan (Egyptian Driver). Edição: Blu Murray. Fotografia: Tom Stern. Trilha Sonora: Christian Jacob. Tierney Sutton Band. Duração: 96. Razão de aspecto: 1.90 : 1. Gênero: Biography. Tags: popcorntime oscar2017

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