Super

Aug 5, 2016

Imagens

Sinto muito, Marvel. Sorry, DC. Um dos melhores filmes sobre heróis dos últimos anos é Super. Não que ele tenha efeitos visuais de última geração. Nem que ele tenha um personagem carismático que faz piadinhas escolhidas a dedo pelos produtores (que não querem correr o risco de “subir a censura”). Também não é porque ele entope o roteiro de personagens mascarados, cada um com sua história de origem, rivalizando quem consegue maior tempo de tela. O filme não possui nada disso. “Super” consegue se desvencilhar de todos esses clichês e se sair ainda melhor que o ótimo e controverso Deadpool, justamente por levar o “controverso” às últimas consequências (e não ficar com medo do que o público irá pensar). O filme dirigido e escrito por James Gunn (Para Maiores, Guardiões da Galáxia) desconstrói o sub-gênero e ainda consegue sair por cima dos destroços. Ele descaradamente vai na fonte mística que deu origem à mitologia moderna e esfrega na nossa cara que não precisa muito para ser um herói. Basta lutar contra o mal. E quem é o mal? É aí que o filme surpreende ainda mais.

A história não seria nada sem as participações descontraídas, energizadas, inspiradas de seu elenco. Se até Kevin Bacon consegue com seu Jacques fazer seu braço direito duvidar de tamanho desvio moral do chefe, e a lindíssima Liv Tyler serve como um perfeito esboço que justifique qualquer tipo de loucura, é Ellen Page que nos representa, em toda sua loucura fanática, sua luxúria em corpo de menina e sua capacidade de unir uma criatura completamente caricata em um formato palatável. Ela consegue empalidecer a foderosa Hit-Girl (Chloë Moretz, Kick-Ass), que se envergonha e sai de fininho da sala.

E apenas a figura introvertida de Rainn Wilson conseguiria transformar um arco de herói em algo tragicômico sem perder o dom da graça. Seu Frank Darbo (Donnie Darko?) é tão inusitado, mas tão real, que quase conseguimos enxergá-lo naquela figura tímida que sussurra enquanto fala. Aliás, quase não importam suas falas. Olhe como seu rosto se contorce ao descobrir que o telejornal descreve o justiceiro do bairro como “musculoso”. Olhe a sua miopia a respeito de sua esposa e entenda como o “laço eterno” de Deus se comporta na vida real. Veja a ilusão por trás de uma máscara virar realidade do dia para a noite.

Porque o fato é: estamos no mundo real, mas é a imaginação dos personagens (e a nossa) que fazem todo o trabalho. Frank se lembra apenas de dois momentos perfeitos em sua vida: quando ajudou um policial a capturar um fugitivo e quando beijou sua mulher em seu casamento. Portanto, quando a viciada mulher de Frank o deixa para ficar com o bandido do bairro Jacques, não é difícil enxergar onde isso irá dar.

Ou será? Qualquer pessoa normal esqueceria da desilusão amorosa em pouco tempo. Porém, o que acontece quando você acredita no laço divino do matrimônio e essa mesma pessoa (que coincidência) é “iluminada” por Deus? Ou, melhor dizendo, quando essa pessoa está procurando um motivo insano qualquer para conseguir dar a volta no diabo e justificar seu chamado divino? E o que acontece com a mente desse sujeito, que mistura revelações sagradas com uma sequência de hentai?

A direção de James Gunn torna tudo mais simples e rápido, mas estamos de fato assistindo a um drama pesado que graças à máscara de herói vira uma comédia de horror. Os fabulosos créditos iniciais, estilizados como desenho em papel de caderno, facilitam essa visão. Os cortes rápidos, e até o uso de efeitos semelhantes à série televisiva do Batman, demonstram de uma maneira eficiente como se constrói um “filme com capa” sem parecer macabro demais.

Além do mais, a produção do filme parece se divertir imensamente com esse roteiro. A direção de arte coloca uma costura de trapos vermelhos de gosto extremamente duvidoso (mas como o diabo é vermelho, melhor chamar de carmim). Depois disso, seu carro se transforma no “Carmim-móvel”, e até a chave que ele usa para bater nas pessoas é vermelha (quer dizer… carmim!).

Ao mesmo tempo, a fotografia de Steve Gainer deixa tudo colorido ao máximo do lado dos heróis, e com todas as cores drenadas do lado dos “vilões”. Até o casal que fura a fila do cinema não tem cor em suas roupas. E quem disse que heróis precisam de tema musical? A trilha de Tyler Bates é divertida do começo ao fim, que junto de uma seleção musical frenética e uma edição idem, torna a experiência enxuta, mesmo se passando meses no processo.

Com uma produção modesta, um elenco de primeira e uma direção/roteiro que buscam a todo momento erguer uma discussão a respeito do que é “bem versus mal”, moral, certo e errado e tudo isso que coisas como religião são usadas para envenenar a mente das pessoas – hoje seriam os heróis, diga-se de passagem – “Super” é mais do que um filme realista tentando se inserir no mundo fantástico desse gênero: é um trabalho irreverente e ao mesmo tempo ambicioso que tenta desconstruir a noção quase sempre equivocada de que combater o crime é algo que naturalmente é o certo a se fazer.

Wanderley Caloni, 2016-08-05. Super. Super (USA, 2010). Dirigido por James Gunn. Escrito por James Gunn. Com Rainn Wilson, Ellen Page, Liv Tyler, Kevin Bacon, Gregg Henry, Michael Rooker, Andre Royo, Sean Gunn, Stephen Blackehart. IMDB.