Taxi Driver

May 14, 2012

Imagens

A primeira coisa que senti ao iniciar a sessão do filme noir do Scorcese foi pensar que talvez eu não estivesse pronto para o que veria a seguir. De certa forma, “Táxi Driver” é um filme com tantas camadas e significados que fica difícil classificá-lo apenas como um excelente filme. A princípio, ele nem parece tão bom assim. Se perde em uma história sem cabimento, ou que tenha algum tipo de lógica em sua trama. Porém, ao olhar mais de perto, o que vemos é o resultado de uma catarse artística que pode-se notar em diversos indícios da produção: um roteiro (Paul Schrader, que assina também “Touro Indomável”) que foca mais em seu personagem e não em suas falas; uma direção que assegura que o ponto de vista do motorista de táxi seja o único ponto de vista do filme inteiro; interpretações que enriquecem os personagens pelas expressões e movimentos, não se tornando afáveis para o público, mas antes soando autênticos (Robert de Niro e Jodie Foster); a fotografia de Michael Chapman que anda de mãos dadas com uma montagem segura feita por uma dupla que investe nas tomadas noturnas em planos-detalhe significativos apenas para o protagonista (como o espelho do motorista), enfocando sempre o que ele vê; por fim, uma trilha sonora ocasional mas impactante de Bernard Herrmann — colaborador frequente de Hitckcock — que, mesmo que repetitiva, mescla com competência seus dois temas principais.

Algo estranho emerge de Travis (de Niro), o motorista solitário de Nova Iorque. Sua feição inexpressiva diz muito mais. Está exausto daquilo tudo. Não sabemos exatamente o que está pensando, mas o vemos mudar atravéz de seus atos. A fotografia pesada de noite contrasta com a limpidez do dia. Nada à noite parece ser o mesmo. As pessoas mudam. Estão iluminadas por neon. Neon vermelho cor de sangue.

Só há maus exemplos nas ruas. Só há, segundo Travis, a escória. Alguém precisa limpar as ruas da quantidade absurda de prostitutas e seus cafetões, assassinos, ladrões, arruaceiros. Não há nada de bom nas ruas. Alguém tem que começar a fazer alguma coisa.

Travis entende que há algo a fazer, mas não sabe exatamente o quê. Está afim de fazer algo, qualquer coisa, para mudar sua realidade. Sua solidão o força a fazer algo, se não ficará louco. Não consegue dormir nem trabalhando 14 horas seguidas por 7 dias. Não consegue se comunicar, se relacionar com seus colegas. Não consegue ter uma namorada. Não sabe o que fazer. Sua rotina não é a de um cara que se deu bem, mas Travis não é um fracasso completo. É apenas como um dos seus clientes, andando sem rumo pelas ruas da cruel metrópole.

Somo levados desde o começo dentro do carro de Travis, mais para observar a realidade em sua volta. Sua narração em off determina apenas seu raciocínio, mas podemos ver por nós mesmos o que faz uma pessoa tomar as decisões que ele toma. Não há muito o que interpretar quando se trata de entrar na mente de um lunático, mas muito mais quando nossa mente conversa com ele, quando vemos por nós mesmos. Talvez o Cinema, como visual, sirva como uma luva para filmes desse tipo. Conseguimos pelos enquadramentos e movimentos de câmera de Scorsese enxergar além do cenário óbvio de dentro de um táxi. Conseguimos acompanhar o passar do tempo e nenhuma mudança. Essa falta de mudança, essa ausência de um rumo, é exatamente o que move Travis, e talvez mova muito mais gente pelas ruas.

Hoje “Táxi Driver” reflete uma filosofia profunda ainda que dita de forma simples sobre política, violência, justiça e impunidade. Muito mais do que Batman de Nolan, o Travis de Scorsese é mais palpável, mais real, tanto que quando há ação, ela não é desenfreada como nos filmes de ação, mas trágica e mais difícil a cada passo de nosso herói. Vemos “Travisses” em todo canto, com seu discurso justiceiro. Muitos deles são taxistas, também. Gente que trabalha por todo o lado, e vê que a coisa não pode melhorar. Na verdade, vem piorando cada vez mais. Políticos não fazem nada a não ser investir mais na miséria humana, dando a sensação que há uma tarefa difícil dentro de seus escritórios e que nós, cidadãos de bem, podemos apenas votar nesses senhores e esperar pelo melhor.

Em uma América cada vez mais armada, não é o governo que dita as regras. Entre uma tragédia e outra, vidas inocentes são salvas. Diferente do nosso Capitão Nascimento de Tropa de Elite, um herói com nome para salvar os indefesos dos bandidos cruéis, o Travis dos americanos está pulverizado em milhares de cidadãos inconformados e que decidem agir. Eles estão prontos. Sempre estiveram. Sua cultura os permite isso. Não são ovelhas prontas para serem salvas. São lobos prontos para serem usados. Ao menos isso eles têm.

Wanderley Caloni, 2012-05-14. Taxi Driver. Taxi Driver (USA, 1976). Dirigido por Martin Scorsese. Escrito por Paul Schrader. Com Diahnne Abbott, Frank Adu, Victor Argo, Gino Ardito, Garth Avery, Peter Boyle, Albert Brooks, Harry Cohn, Copper Cunningham. IMDB.