Ted

Quando assistimos à introdução que marca o início da amizade entre John, um garoto de 8 anos (Bretton Manley), e Ted, um ursinho de pelúcia que começa a falar a partir de um desejo que o garoto faz para uma estrela cadente, entendemos ser essa amizade o núcleo da história dirigida e escrita por Seth MacFarlane, do desenho politicamente incorreto Family Guy, e que aqui além de dirigir dubla o ursinho com sua voz. Apenas o fato do filme acreditar nessa relação entre os dois é o suficiente para fazer com que o espectador faça o mesmo, e desista de assistir mais um besteirol com piadas envolvendo ursinhos de pelúcia falantes. Ted é tão ou mais real do que John, e depois que ele e John “crescem” (Mark Wahlberg) nunca deixam de honrar a promessa que fizeram quando crianças: que seriam companheiros inseparáveis.

O problema é que, apesar de John e Ted agora terem vozes mais grossas e John estar até namorando por quatro anos com a estonteante Lori (Mila Kunis) não faz com que ambos deixem suas manias de quando crianças, como fazer trocadilhos estúpidos, usar referências aos anos 80 e fazer piadas sobre peidos. No entanto, a proporção com que isso ocorre reflete a fase adulta, e agora a dupla de amigos, bebe, cheira e faz piadas envolvendo inúmeros palavrões (suavizadas por uma legenda mutiladora, o que provavelmente deve se repetir na versão dublada). Esse desapego de John com a vida adulta faz com que Lori se canse deles, e a relação entra em um impasse: ou ela ou o urso.

A produção abraça os anos 80 e toda a nostalgia da época através de uma fotografia com cores mais pálidas e uma trilha sonora muito à vontade com o tema, buscando inspiração em obras como E.T. e Esqueceram de Mim. Sua direção de arte busca retratar o período sem exageros, mas aplica cuidados necessários para que percebamos se tratar de uma singela homenagem. Afinal de contas, o mundo de John reflete essa realidade, onde o centro é seu ursinho Ted. O saudosismo faz parte da experiência de convivermos com o ser de pelúcia falante, e o diretor Seth MacFarlane consegue perceber isso e não estragar tudo engarrafando a história no formato medíocre das comédias românticas que seguem uma fórmula.

Nesse sentido, a comédia politicamente incorreta é inteligente o suficiente para não cair na batidíssima gafe da auto-paródia, se mantendo na superfície com uma história tão sensível quanto cômica, e ainda conseguindo manter uma saudável dose de humor negro (e, sim, isso é possível). Seus personagens são cativantes, por parecerem reais, e a sensação final é de que deveríamos passar mais tempo com esses caras. Não importa que um deles seja um urso de 30 centímetros se ainda consegue ser divertido.

Revisita

Vendo dois anos depois, Ted me parece um filme extremamente coeso e coerente com sua proposta, algo quase que imprevisível na época visto que seu diretor e roteirista Seth MacFarlane é conhecido pela série de animação com piadas sem contexto formada por gags que produzem risos pelo absurdo e pela repetição de piadas: Family Guy.

Porém, é necessário dar o braço a torcer: usando como premissa o urso que magicamente ganha vida para uma criança e passa a conviver com ela até depois dos seus 30 anos é uma metáfora eficiente para os jovens que se recusam a amadurecer e costumam colocar a culpa no resto do mundo pelo seus fracassos. A maneira com que o filme discute isso consegue trazer ao mesmo tempo as piadas sem contexto de Ted assim como o drama de um personagem (um Mark Wahlberg assustadoramente eficiente) que ganha vida pelas conversas com seu urso (dublado pelo próprio MacFarlane).

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-10-03. Ted. Ted (USA, 2012). Dirigido por Seth MacFarlane. Escrito por Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild, Seth MacFarlane. Com Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane, Joel McHale, Giovanni Ribisi, Patrick Warburton, Matt Walsh, Jessica Barth, Aedin Mincks. imdb