Tempestade de Areia

A filmografia por trás da cultura do Oriente Médio vira e mexe acaba girando em torno dos costumes antigos de uma cultura predominantemente “machista e opressora”. Em Tempestade de Areia, isso não é diferente. Contudo, encarando como toda a questão desenvolvida pelo filme consegue ser aplicada a qualquer sociedade e qualquer costume, vemos que muitas das nossas próprias ações, nós, do “mundo civilizado do Ocidente”, que acreditamos ser atribuída à nossa liberdade de escolha, são apenas reflexos de uma cultura que já existia antes de nós existirmos. Onde está o seu livre-arbítrio agora?

A direção do estreante Elite Zexer torna tudo imediatista com sua câmera que não para (comparável com outro filme de destaque na região, “A Separação”) e que observa a realidade quase sempre do ponto de vista da personagem mais atingida: a esposa mais velha. O filme começa com uma discussão entre o pai e a filha, que está tentando dirigir sendo a todo momento criticada por ele, que não coloca os olhos na estrada vazia. E a história continua com o pai tendo a opinião final de quase tudo que gira em torno de sua casa, a despeito de ser sua primeira esposa o pilar da família, a que cuida para que tudo funcione, que as crianças vão para a escola, etc.

As características físicas da velha esposa e da nova esposa já determinam quem está com a vida ganha e quem está sofrendo o martírio de uma vida não-escolhida por ela, mas que agora é sua inteira responsabilidade. Ela é o braço-direito de seu dono, e zela pelo futuro da filha mais velha, que está de namoro com um jovem de outra tribo. Quando a questão vem inevitavelmente à tona para o pai, a questão se complica e temos um conflito de liderança nas decisões basicamente culturais de “quem é que manda”, ou melhor dizendo, “como as coisas devem ser feitas”. A decisão, aparentemente, nunca está muito nas mãos de ninguém.

A interpretação de todos está impecável, mas é Ruba Blal que segura nas costas a responsabilidade de demonstrar as incongruências de um sistema criado há milênios e que hoje encontra problemas na realidade. o entanto, o filme é muito mais sobre os detalhes sutis do que essas pessoas precisam fazer para tentar valer suas próprias decisões em vez do que está escrito na pedra, e é nesse ponto que ele se encontra com a força dos costumes, seja em um povo tribal ou em uma megalópole, no campo, enfim, em qualquer lugar onde haja pessoas o suficiente para serem criadas regras que irão delinear como cada um deve agir.

E se o final do filme parece triste, é porque ele é a conclusão lógica do que acontece com cada um de nós, preso ao sistema social vigente. A última tomada não está enfocando a próxima geração à toa. É a triste constatação de que, enquanto inocentes, nada podemos inferir. No entanto, depois de crescidos, talvez isso não mude muita coisa, mesmo que a gente acredite piamente estar no controle da situação.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-21 imdb