Terra Estranha

Oct 9, 2016

Imagens

Um filme com formato enlatado, com uma trilha sonora desvirtuada em um marasmo absurdo. E, mesmo assim, o seu tema consegue atravessar todos esses problemas e encontrar a merecida redenção no capítulo final. Com isso já sabemos que não é um filme fácil de digerir, que pode dar sono ou sensação de mesmice. Porém, dando tempo ao tempo, e adentrando no universo fantasioso de Terra Estranha, é possível receber a recompensa.

Essa é mais uma incursão no universo australiano de Nicole Kidman, que faz uma mulher que vive um casamento de mentira com seu frio marido (Joseph Fiennes), obcecado pela segurança moral de seus filhos. Ou melhor dizendo, de sua filha de quinze anos (Maddison Brown). Eles estão em fuga de uma situação constrangedora de onde vieram, e caem em uma pequena cidade no meio do deserto que faz quarenta graus e onde tempestades de areia são comuns. Nada disso parece perturbá-los mais do que tentar manter a farsa de uma família normal adiante.

O propósito do filme vai se revelando aos poucos. Tem a ver com a intolerância da sociedade frente à livre sexualidade da mulher, mas você não vai ver nenhum diálogo falando sobre isso, e sim situações e expressões ressentidas de personagens que sentem-se mal em ter que viver uma mentira pelo bem da normalidade. Todos estão igualmente competentes, mas é Fiennes, Kidman e Hugo Weaving que estabelecem o clima pessimista dessa história, que não terá de jeito nenhum um final feliz, com no máximo alguma catarse momentânea. O filme dialoga com algo muito maior do que a história de apenas uma família.

Ao mostrar o deserto como algo belo, poético (é recitada uma poesia quando o vemos à noite) e inofensivo nos contrapomos à aparência da cidade e de seus moradores, que soam assustadores apenas pelo fato de existirem e não fazerem quase nada para ajudar aquela família em detrimento a uma curiosidade mórbida pelas suas vidas, e como isso irá afetar a dinâmica da cidade (em específico como a beleza das mulheres da família irá afetá-la). Um passado de abandono do personagem de Hugo Weaving convenientemente é colocado para dar um pouco de motivo para ele tentar ser o mocinho, apesar de sua moral não ser totalmente íntegra.

Ao final, é Nicole Kidman que tem seu momento de brilho, em uma cena que não exige muita interpretação, mas apenas coragem, e que é forte em catalisar toda a discussão que vimos desde o começo se formando. Sim, há um marasmo hipnotizante por todo o tempo, e a trilha sonora não ajuda. Mas talvez seja esse o objetivo: nos fazer parte daquela cidade no meio do nada para depois nos jogar no deserto de emoções. Isso explicaria os créditos iniciais.

Wanderley Caloni, 2016-10-09. Terra Estranha. Strangerland (Australia, 2015). Dirigido por Kim Farrant. Escrito por Michael Kinirons, Fiona Seres, Fiona Seres. Com Nicole Kidman (Catherine), Joseph Fiennes (Matthew), Hugo Weaving (Rae), Lisa Flanagan (Coreen), Meyne Wyatt (Burtie), Maddison Brown (Lily), Nicholas Hamilton (Tom), Jim Russell (Alan Robertson), Sean Keenan (Steve Robertson). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).