Terra Prometida

Oct 26, 2016

Imagens

Uma farsa deliciosa dramatizando o apocalipse enxergado por Karl Marx. Mostra os capitalistas inescrupulosos sem valor à vida humana para defender o comunismo que dá valor aos humanos como ferramenta de sacrifício. Não é um filme para levar a sério, mas como qualquer propaganda vermelha que se preze, ela tem que ser dramática; quiçá hilária. Na verdade, é de uma série de filmes do diretor que ridiculariza a propaganda soviética.

O diretor, polonês, e homenageado desta Mostra, criou este drama sob o filtro romântico e manipulador dos políticos comunistas de sua época, que discursavam sobre a “pobreza gerada pelo capitalismo”, “forte desigualdade” e todo o pacote que hoje em dia infelizmente é levado a sério. O diretor então distorce ainda mais as lentes desse filtro (assim como as de sua câmera), transformando a burguesia no que era a nobreza: porcos ignorantes, desprezíveis, estúpidos, imorais, desumanos e mesquinhos. Nada pode ser levado a sério em um filme que não se leva a sério, exceto a piada que é feita do outro lado. Em determinado momento, um personagem, após aplicar um golpe, senta-se no chão, dá uma risada de satisfação e acena para a câmera, para o espectador.

O filme de quase três horas é filmado como um épico fantasioso, e é delicioso de se ver. Com uma trilha sonora empolgante e movimentos de câmera dinâmicos, a história nunca para. Seus personagens são enérgicos demais, estão sempre gritando demais. A cor é exagerada, sobretudo o vermelho do sangue derramado do proletariado, pessoas do mesmo sangue das famílias judias que concentravam capital. O figurino é caracterizado com cores berrantes para a burguesia, o frio azul e marrom para os trabalhadores. Há um charme arrebatador nos muros e portões das fábricas, assim como suas chaminés, eternamente enfocadas por Andrzej Wajda e eternamente soltando fumaça.

A atuação de todos os homens é exagerada, e os anjos, como uma mulher que pensa no ser humano, é vista como íntegra e a única heroína que se preza. No meio temos todo tipo de traição: adultério, incêndios criminosos, golpes financeiros. Mas todos são bem-humorados ou afetados, o que torna tudo impressionista. As máquinas frequentemente cortam e espremem carne humana, jorrando sangue e desprezo dos patrões, que reclamam que sujou tecido bom.

De caricato temos sobretudo um trio de amigos, os personagens principais, que passeiam por essa miscelânea de criaturas. Eles querem fundar uma sociedade e começar um negócio, uma fábrica de tecido. Cada um deles possui absolutamente nada, o que, para eles, “somados é o suficiente”, como uma bela inversão da ideia marxista que a burguesia roubou algo do proletariado. Suas aventuras para conseguir o que querem parecem despretensiosas, mas possuem a energia da vida. Pode existir um certo drama e uma certa crítica, mas esse filme é quase em sua maioria uma comédia utópica. Uma deliciosa comédia utópica. À luta, camaradas!

Wanderley Caloni, 2016-10-26. Terra Prometida. Ziemia obiecana (Poland, 1975). Dirigido por Andrzej Wajda. Escrito por Wladyslaw Stanislaw Reymont, Andrzej Wajda. Com Daniel Olbrychski (Karol Borowiecki), Wojciech Pszoniak (Moryc Welt), Andrzej Seweryn (Maks Baum), Anna Nehrebecka (Anka Kurowska), Tadeusz Bialoszczynski (Ojciec Karola - Karol's Father), Bozena Dykiel (Mada Müller), Franciszek Pieczka (Müller), Danuta Wodynska (Müllerowa), Marian Glinka (Wilhelm Müller). IMDB.