Tese Sobre um Homicídio

Ricardo Darín é um advogado que dá aulas e testemunhou com seus alunos o corpo de uma garota assassinada na frente de sua sala de aula, na Universidade de Advocacia de Buenos Aires. Na véspera havia ido ao lançamento de seu livro, A Estrutura da Justiça, onde tem uma conversa curiosa com um dos seus alunos, filho de um amigo de longa data. O aluno comenta que sua teoria sobre a justiça é que qualquer um pode matar borboletas se não pertencer a um poderoso, já que a lei só existe para protegê-los. Agora, adivinhe qual o inseto que havia no pingente que estava no pescoço da garota assassinada?

Tese Sobre um Homicídio peca pelo exagero em sua trilha sonora, em suas cenas girando, em seu ritmo excessivamente lento e em um diretor que acha que está abafando por inserir seus personagens em cenas que formam um mosaico de informações que lembram a bagunça característica dos quadros de Picasso. O mesmo aluno que citei, que obviamente vira suspeito na teoria que se forma na cabeça do advogado-professor, comenta que a obra-prima de Picasso, para ele, é a que sintetiza todos os sacrifícios feitos para a salvação da humanidade. Tentamos a todo o custo entender as metáforas por trás dessa história, mas o máximo que conseguimos é relacionar a referência da borboleta em O Silêncio dos Inocentes.

No entanto, o mesmo filme consegue atingir sutilezas digna de aplausos, pois quase não há diálogos expositivos, mas através da ação do protagonista e algumas de suas expressões conseguimos detectar o movimento de sua moral atravessando a barreira do que é correto “impetrando” sua vontade de estar certo, mais do que qualquer resquício de justiça que poderia haver por trás da figura de um advogado que adquiriu fama precocemente e agora vive de seus louros lecionando para um grupo seleto de alunos. “Meu metabolismo é estranho”, comenta para o amigo sobre ele inverter a ordem de sua profissão. Sabemos que ele também está na fase de garanhão pós-40 ou 50, e seus galanteios em cima de jovens mulheres consegue criar uma relação no mínimo curiosa com seu principal suspeito no assassinato.

Ricardo Darín vive um personagem que é a peça fundamental para este thriller psicológico, pois todas as cenas lhe pertencem. Logo, a realidade que enxergamos no filme pertence unicamente à sua imaginação, seja ela pautada na realidade ou não. Isso com exceção de uma única cena final e as inúmeras visões que ele tem a respeito do que poderia ter acontecido como circunstâncias do assassinato na frente da faculdade. Ele encarna, portanto, um amuleto do espectador, que pode ou não ter um fundo dramático. E talvez o maior pecado do filme seja nunca estabelecer qualquer profundidade de seus personagens, investindo sempre em joguetes baratos de uma investigação que já vimos tantas vezes…

Se redimindo parcialmente em seu final dúbio, Tese Sobre um Homicídio tinha o potencial de ser muito mais do que é, não fosse a prepotência de seus idealizadores. Infelizmente, se trata de um filme misto, com bons momentos – como uma sequência na farmácia – e momentos mornos demais para desencadear qualquer grau acima do velho clichê psicológico que conhecemos do gênero.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-12-23. Tese Sobre um Homicídio. Tesis sobre un homicidio (Argentina, 2013). Dirigido por Hernán Goldfrid. Escrito por Diego Paszkowski, Patricio Vega. Com Ricardo Darín, Alberto Ammann, Calu Rivero, Arturo Puig, Fabián Arenillas, Mara Bestelli, Antonio Ugo, José Luis Mazza, Mateo Chiarino. imdb