The Ballad of Buster Scruggs

| Wanderley Caloni

December 11, 2018

Jack London e Stewart Edward White foram famosos escritores de sua época, lá pelo final do século 19 até o início do 20. Eles assinam duas estórias dessa antologia em que apenas os irmãos Coen conseguem completar. E não apenas no roteiro, mas na direção, imortalizando essa antologia como se todos esses seis contos em conjunto estivessem sendo contados pela primeira vez. Mas não exatamente.

O que permite que os Coen refaçam as trilhas de seus antecessores é um apuro estético e linguístico que permite que nós percebamos que eles estão cientes que não fazem nada de novo. Porém, fazem bem feito. É mais fácil perceber isso logo no seu começo, onde o próprio narrador inicia a trajetória cantando e magicamente como o melhor atirador onde quer que passe. Ele começa como uma figura onisciente que nos introduz a este mundo um tanto fantasioso do velho oeste, mas ancorado nas duras lições que os colonos aprenderam nessa terra árida, muitas vezes sem lei e sem água. E ele morre, como merece, pois os irmãos Coen não precisam de muletas narrativas para impor força em suas estórias.

Essas duras lições do deserto semi-árido estadounidense estão sintetizadas e universalizados na fala de um dos últimos personagens, ele próprio um ceifador de vidas: “as pessoas adoram ouvir histórias porque se identificam com seus personagens; elas querem ser eles sem ser exatamente eles; não no final, pelo menos.” A morte parece estar sempre implícita na frase do sexto episódio, pois depois de assistirmos cinco trágicos contos começamos a entender um pouco melhor a moral em que eles estão fundamentados.

Desde seu último trabalho, Ave, César!, os irmãos roteiristas e diretores parecem fascinados não apenas pelo misticismo que construiu a cultura norte-americana, mas na própria arte de contar histórias. Eles realizam todo o trajeto com um apuro técnico que sozinho já nos faz ficar boquiabertos diante de diferentes paisagens, texturas, fotografias e enquadramentos. Estamos de fato em uma viagem sensorial àquela época, e nada nos faz pensar diferente. Exceto, é claro, nosso narrador do começo, vestido de um branco impecável, e o protagonista do último (em um preto impecável). Note como os símbolos de vida e morte estão a todo momento cercando nossos herois.

A precisão artística dos Coen e sua equipe não recai apenas na narrativa em si, mas nos detalhes glorificados de um tempo que já se foi. Apesar de serem apenas carroças cobertas de pano, uma caravana de colonos repousando em círculo pertence a um imaginário popular por tanto tempo que ele poderia soar batido demais, mas não é o que acontece aqui. A mesma coisa com um garimpeiro experiente procurando por um bolsão de ouro em um terreno ainda intocado pelo homem. Essas figuras lendárias e reproduzidas em imagens nos livros de crianças recebem uma roupagem mais adulta, mas ainda possuem o apelo de histórias para dormir, pois os enquadramentos que os Coen utilizam são por demais óbvias. Elas apenas ficam mais poderosas. Tão poderosas que cada vez que uma termina ela acaba cedo demais, e quando outra começa torcemos para não ser a última.

Isso porque nenhuma delas se parece, mas todas parecem contribuir como uma peça de quebra-cabeças que tenta remontar a História com o apelo narrativo que nos faz sempre ficar deslumbrados diante de personagens simples, mas poderosos, pois seus dramas são universais, apenas espelhados na realidade americana, mas que poderiam sair de qualquer outro lugar do planeta. A luta pela sobrevivência requer sacrifícios, mas nem sempre eles são recompensados. A partir de que momento na História recente começamos a nos esquecer disso?

Imagens e créditos no IMDB.

The Ballad of Buster Scruggs. EUA, 2018. Escrito por Joel Coen e Ethan Coen (mas as estórias 'All Gold Canyon' e 'The Gal Who Got Rattled' são respectivamente atribuídas a Jack London e Stewart Edward White. Dirigido pelos irmãos Coen. Com Tim Blake Nelson, Willie Watson, Clancy Brown, James Franco, Stephen Root, Liam Neeson, Harry Melling, Tom Waits, Sam Dillon, Bill Heck, Grainger Hines, Jonjo O'Neill e tantos outros de um cast que é uma miscelânea de figuras diferentes e escolhidas a dedo. A produção surge na Netflix. Faroeste, velho oeste, antologia, contos..